Pai Adotivo 
Donna Clayton
 

Ttulo: Pai adotivo
Autor: Donna Clayton
Ttulo original: Adopted Dad
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 1999
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna
Estado da Obra: Corrigida

ramos estranhos quando nos conhecemos...
Christopher Kimball foi buscar sua filha e somente ento soube que a adoo no mais lhe seria concedida. A menos que ele se casasse imediatamente, a pequenina rf no teria uma famlia. Antes que pudesse perder a esperana, uma linda estranha lhe props uma soluo surpreendente: casamento! Seria a soluo ideal, no fossem os olhos de Mary Hellen to doces e to ternos. Afinal, Christopher queria apenas uma filha, no uma esposa!


CAPTULO I

 Como assim "as regras mudaram"?!  Christopher Kimball tentava conter a irritao ao questionar o funcionrio do Departamento da Servios  Infncia. Afinal, estava em pas estrangeiro e devia ser flexvel.
A escrivaninha entre os dois parecia uma parede de concreto. E no era a nica barreira a separ-los.
O homem no entendia uma nica palavra em ingls, Christopher sabia disso. Mas sua frustrao estava, com muita rapidez, se transformando em a raiva. Nada ocorria do modo correto por ali?
Uma nuvem negra e ameaadora pareceu descer sobre ele, em resposta.
O rapaz atrs da mesa, a pessoa que tinha nas mos o poder de conceder ou no o maior desejo de Christopher, apenas deu de ombros.
O idioma gutural eslavo que ele falava fez Christopher automaticamente virar-se para o terceiro indivduo da sala, o jovem tradutor que ele contratara, chamado Viktor.
Christopher sabia que sua impacincia tornava-se evidente.
	O que ele est dizendo, Viktor?
	Pede-lhe desculpa  afirmou o moo.  Diz que no tem como ajud-lo. Seus supervisores decidiram que voc no poder tirar Ekhatherina do orfanato. No permitiro que a adotem. No deixaro que leve a criana do pas.
A cada negativa, Christopher sentia-se como se estivesse perdendo o cho. A decepo avassaladora bastava para deix-lo em agonia.
Como aquilo podia estar acontecendo? Todas as questes deviam ter sido solucionadas antes de sua sada dos Estados Unidos. Mas, no, estava ali, do outro lado do planeta, descobrindo que seus problemas apenas comeavam.
	Eu no entendo!  Mais uma vez, Christopher dirigiu-se ao funcionrio do governo.
Entretanto, foi Viktor quem explicou melhor:
	O senhor no tem esposa, sr. Kimball.
	Mas todos j sabiam disso semanas atrs! A agncia dos Estados Unidos me garantiu...
Christopher perdia o controle, algo que detestava, mas a situao estressante era insuportvel.
Alterou o tom de voz e usou as mos para se expressar:
	O fato de eu ser solteiro no devia ser impedimento! Disseram-me que o nmero crescente de crianas que ficaram sem lar por causa da guerra fez com que houvesse uma flexibilidade na lei.
Houve mais conversa entre Viktor e o funcionrio, e, naquele instante, os olhos de Christopher migraram para a fotografia em preto-e-branco que tinha na mo. Sabia bastante coisa a respeito da menininha que viera adotar em Kyreznvia.
A garotinha da foto tinha catorze meses de vida. Os olhos castanho-escuros, com uma expresso de um bichinho atemorizado, conforme apelidara-os, mostravam uma vulnerabilidade que o afetava em um grau impressionante.
Os cabelos castanhos de Ekhatherina haviam sido cortados na altura da nuca. Tinha informaes de que era saudvel, ou melhor, estava saudvel quando Christopher fez a solicitao para adoo, quase um ms atrs. O fato de no saber se Ekhatherina estava bem agora torturava-o. Passou o dedo pelo retrato.
Queria tanto ser pai... No, gostaria de ser o papai de Ekhatherina. Desesperadamente!
A pobre criana perdera os pais quando o casal caminhava, por engano, em uma pequena trilha que ladeava a cidade e que fora infestada de minas terrestres.
Aquelas duas pessoas nem ao menos imaginaram que arriscavam a vida, e aquela travessia pelo campo deixaria rf sua nica filha.
A bela menina, que se apossara do corao de Christopher desde o instante em que ele pousou o olhar em sua fotografia, vinha sendo abrigada em um orfanato.
Ekhatherina... Sua linda, solitria e carente garotinha.
Mas naqueles dias em Kyreznvia, a histria de Ekhatherina no era excepcional ou inusitada. Muitos pequenos foram deixados famintos e sem lar pela guerra civil que ocorria no pequeno pas, a tal ponto que o governo fez um apelo. Pessoas do mundo todo foram conclamadas pelos meios de comunicao a abrigar esses garotos, proporcionando-lhes um lar, famlia... e amor.
Kyreznvia era uma terra linda, rica em cultura e com pessoas maravilhosas. E Christopher no era um estranho no pas. Visitara o local anos atrs, quando Kyreznvia fazia parte da Rssia e seus pais levaram-no ao exterior.
Ficaram naquela regio por tempo bastante para fazerem amigos. Claro, como era na ocasio um alegre garoto de doze anos de idade, Christopher permitira-se perder contato com os meninos que conheceu. Mas jamais se esquecera do local to pitoresco.
Em sua casa, na Pensilvnia, Christopher estivera assistindo ao noticirio internacional das sete horas quando soube do problema das vtimas da guerra na Kyreznvia.
Algo dentro dele fora avivado, e Christopher vira-se discando ;para o nmero presente na tela da televiso antes mesmo de dar-se conta do que fazia.
Isso ocorrera semanas atrs.
Entrara em contato com uma agncia de adoo nos Estados Unidos, e primeiro procurara informaes sobre Ekhatherina. E recebera o retrato e uma pasta com os dados da menina.
At mesmo lhe disseram que seu estado civil de solteiro no seria problema. Aquelas crianas precisavam de bons lares. No importava que alguns fossem regidos por me ou pai solteiro. A agncia na Amrica do Norte garantira que isso no seria empecilho para que Christopher adotasse Ekhatherina.
Entretanto, naquele instante descobria que a garantia que lhe fora dada no valia mais.
	Mas isso foi at...  O som da voz de Viktor fez Christopher desviar o olhar da fotografia.  ...ontem.
	Ontem?  Christopher repetiu, irado.  E voc, por favor, poderia me dizer o que ocorreu no curto espao de tempo de vinte e quatro horas para mudar essas regras miserveis?!
Viktor sorriu.
	Perdoe-me, sr. Kimball. Isso foi... como eu diria... uma figura de linguagem. No quis dizer literalmente "ontem".
Como Christopher no retribuiu o sorriso, Viktor desviou o olhar e pigarreou.
	Veja bem  Viktor continuou, com mais seriedade , nosso pas acabou de proclamar independncia. Nosso governo est apenas nascendo. E emocionante. Mas h muitos percalos. Nossos lderes no tm experincia. As leis mudam de semana para semana.
Dessa vez, Viktor no se furtou a quase gargalhar.
	Algumas vezes de dia para dia, sr. Kimball. 
Christopher via suas chances de levar a pequena Ekhatherina consigo para casa ficando mais remotas a cada segundo.
	Ns tentaremos  Viktor prometeu.  Deve compreender que todos os envolvidos esto procurando fazer o melhor.
	E o que  o melhor? Este homem...  Indicou o funcionrio do governo.   capaz de afirmar que acredita que seja melhor para mim ir embora sem Ekhatherina?
Aps um momento de silncio, Viktor falou com suavidade:
	Ele no est tentando fazer o que  melhor para o senhor. Nosso governo procura encontrar a melhor sada para nossas crianas.
	Aqueles bebs esto famintos!  Christopher vociferou.  Com frio, assustados, sozinhos na face da terra! E metidos em quartos pequeninos e lotados como... como pequenos animais. H vinte crianas sendo cuidadas por um s adulto naqueles orfanatos. Eu li as reportagens. Sei que...
O rapaz atrs da escrivaninha falou. E a resposta de Viktor foi to rspida que fez Christopher indagar:
	O que foi? O que ele disse?
	Nada. Est apenas tentando suavizar o clima. Fez, como dizem os americanos, uma piada.
O sbito nervosismo no olhar do jovem tradutor deixou os cabelos da regio da nuca de Christopher arrepiados. Algo estava errado. Alguma coisa no estava se encaixando ah.
	No pareceu uma piada.
Viktor limitou-se a fitar o teto.
	Eu estou lhe pagando para traduzir, Viktor  Christopher lembrou-o.  Ento, traduza.
	Ele falou...  Viktor gaguejava.  ...que por cem dlares lhe encontraria uma jovem esposa de nossa nacionalidade. Falou que precisaria apenas de dois dias. E sugere que voc volte para os Estados Unidos com a famlia completa.
Ao som da palavra "esposa", Christopher ficou tenso. Nunca tivera um relacionamento permanente.
	Ele no falou por mal, sr. Kimball. Se no estiver interessado, o moo compreender. Entretanto, caso seus superiores descubram a oferta que fez, perder o emprego. Sua discrio ser muito apreciada.
Christopher demorou um instante para controlar-se antes de encarar Viktor,
	Conforme voc disse  Christopher respondeu com frieza , ele estava apenas fazendo uma piada.
Acenou com rispidez para o homem que o atendera e virou-se para partir.
	Sr. Kimball, por favor, lembre-se de que as regras podem mudar de novo. No ms que vem, na prxima semana... At mesmo amanh. Por favor, no se desencoraje.
Falta de coragem era pouco para descrever como Christopher se sentia. Viera de muito longe, tanto em milhas fsicas quanto em comprometimento emocional, dispondo-se a deixar o pas levando aquela menina consigo. Mas sentia-se desolado em constatar seu pouco poder em relao ao assunto mais importante da existncia de Ekhatherina e da dele tambm.
Nem se importou em responder ao incentivo de Viktor. Continuou andando pelo corredor, o corao to pesado que mal lhe permitia respirar.

CAPTULO II

Mary Hellen Ritter estava em dificuldades, mas no se preocupava em demasia com a situao. Os eventos foram inesperados, sem dvida. Mas j estivera em posio semelhante antes.
Bem... talvez no exatamente assim, sem emprego, dinheiro ou perspectivas para o futuro prximo. Entretanto, algo aconteceria. Uma soluo para seus problemas se apresentaria em breve. Sempre fora assim, e agora no haveria de ser diferente.
Aquele hotel parecia moderno comparado  dzia de outros que visitara naquela manh. Entrou e deu uma olhada pelo salo do restaurante. Diversos clientes estavam sentados a mesas muito bem alinhadas.
Um homem de cabelos escuros chamou de imediato sua ateno. Estava sentado, contemplando a xcara de caf como se tivesse o peso do mundo todo nos ombros.
A toalha sobre o tampo, branca e impecvel, fora, sem dvida, tratada com muita goma e ferro quente. O piso no mostrava mancha alguma, assim como as camisas brancas dos garons e garonetes.
Mary Hellen no se importaria em trabalhar em um lugar daqueles. Pelo menos at conseguir dinheiro suficiente para viajar ao pas de seu novo compromisso como professora de ingls.
Mary Hellen fez sinal a um garom e perguntou-lhe onde poderia encontrar o gerente. Sem deter sua disparada para a cozinha, o rapaz apontou para a sala dos fundos.
O olhar de Mary Hellen seguiu a direo indicada. Avistou uma porta do que s podia ser o escritrio da gerncia. Aproximou-se com passos determinados.
Enxugou as palmas midas no tecido da saia, repassando seus argumentos mais persuasivos.
Tinha de arrumar colocao, e com urgncia, porque, se no conseguisse recursos muito em breve, no teria como se manter.
Meneou a cabea como para afugentar a preocupao. Era necessrio se concentrar no que diria. Precisava conseguir um emprego. E naquele dia!
O caf na pesada xcara de cermica que Christopher tinha entre as mos estava amargo e to forte que quase o fez deixar de lado as preocupaes que o levaram a passar o tempo ali, no restaurante do hotel.
Os ltimos quatro dias, desde aquele em que esteve na sala do Departamento de Servios  Infncia e recebeu a notcia de que pessoas solteiras no podiam adotar crianas, estavam sendo os mais longos de sua vida.
As horas pareciam se arrastar. E em todo esse tempo a pequena Ekhatherina no saa de sua mente.
Estaria com fome? Ferida? Amedrontada? E sendo observada de perto naquele orfanato lotado?
Ou estava sendo provocada? Atormentada? Sofrendo abusos?
Cada momento sem saber notcias dela era uma agonia. Seria assim a preocupao dos pais com seus filhos? Eram esses os temores de um pai?
Algo semelhante a um tapinha em seu ombro fez com que levantasse o queixo, embora ningum estivesse perto o bastante para toc-lo. Deparou com uma mulher que passava rumo aos fundos.
Seus lindos cabelos ruivos eram longos e ondulados. Viu apenas um lado do rosto, mas era possvel observar o restante... um metro e oitenta de curvas femininas. Logo pde notar os quadris balanando de um lado para outro ao ritmo das passadas.
Christopher engoliu em seco e voltou a olhar para a xcara vazia. Ento, deu apenas outro breve olhar  moa, bem a tempo de v-la erguendo a mo para bater  porta do escritrio.
A mulher travou uma conversa clara, sem a menor hesitao, com um homem mais velho, que Christopher sabia ser o gerente do restaurante.
Embora ela falasse o idioma da Kyreznvia e usasse roupas semelhantes s das outras mulheres que vira nas ruas e lojas, havia algo diferente na jovem.
Alguma coisa no parecia correta na cena que Christopher observava. S no conseguia descobrir o que era.
Quando o tom de voz dela tornou-se mais urgente e ento ganhou um tom de splica, Christopher concentrou-se de vez no que ocorria no fundo do salo. Ouviu-a dizendo "pajlusta" diversas vezes.
Christopher pouco sabia daquele idioma eslavo, mas durante as visitas dirias ao prdio do Departamento de Servios  Infncia, acompanhado por Viktor, descobriu como pronunciar "por favor" com perfeio. E fizera isso. Diversas vezes.
A garota, pelo visto, enfrentava alguma espcie de complicao. Ou tentava explicar a questo ao gerente ou implorava por auxlio. Christopher no sabia bem o que era.
Ficou imaginando que infortnio ela...
Arregalou os olhos, viu em que se metia e conteve o pensamento.
O que estava fazendo? No devia estar desperdiando energia ponderando acerca do dilema de outra pessoa. Sobretudo em se tratando de uma mulher!
Fizera um voto solene a si mesmo anos atrs: passaria ao largo de mulheres persuasivas.
Foi ento que o gerente, com firmeza, fechou a porta do escritrio bem diante da moa. A derrota e frustrao na postura dos ombros dela fez Christopher levantar-se antes mesmo de dar-se conta disso.
"Voc no vai conversar com ela!", uma voz interna ordenou-lhe. "J tem problemas suficientes. Passe ao lado e v embora. A porta do banheiro fica poucos metros adiante. V para l. Agora!"
Era um bom conselho. Era mesmo. E Christopher tinha inteno de seguir o comando silencioso da parte lgica de sua conscincia. Mas quando aproximou-se da moa, ela suspirou e sussurrou:
	Oh, meu Deus!
Christopher parou de modo to abrupto que teve de erguer um pouco os braos para manter o equilbrio.
	Voc fala ingls!
Ao som de sua voz ela se virou, colocou algumas mechas de cabelos para trs da orelha e o encarou. Ofereceu-lhe o esboo de um sorriso, o que o hipnotizou.
Aquela mulher no era s linda, mas deslumbrante. E bem nova. Seus olhos tinham o verde profundo da mais rara das esmeraldas, as sobrancelhas formando asas perfeitas para proteg-los. Decerto um artista anglico muito talentoso esculpira com delicadeza o pequenino nariz e as mas salientes do rosto.
Ento, viu pelos lbios... Eram os mais sensuais que com que j parara desde que nascera.
	Voc ...  ele disse em um sussurro rouco. "Estonteante", estivera prestes a verbalizar. Por sorte, conseguiu conter-se.
Devia estar louco! Tanta preocupao para com Ekhatherina o abalara, s podia ser isso.
"Voc no pode lanar elogios a estranhas, Christopher, meu velho. Em um pas estrangeiro, pode ser perigoso. O que est pensando?!"
	...uma americana?  ela terminou a sentena, achando que fora isso o que Christopher estivera prestes a indagar.
O sorriso de Mary Hellen ampliou-se um pouco, como para deix-lo saber que j fora abordada muitas vezes por pessoas que, assim como ele, surpreendiam-se em ver uma americana vestindo, falando e morando como qualquer outro nativo de Kyreznvia.
Mas Christopher no era como os provveis desconhecidos que ficaram desconcertados diante de sua nacionalidade, ele considerou. De jeito nenhum.
Em vez disso, quase fez papel de bobo, e estaria mentindo se dissesse que no estava aliviado por ela ter terminado a orao de modo to casual.
	Sim, eu sou.
	Ah!  foi a nica resposta que Christopher conseguiu balbuciar.
Diversas questes lhe ocorriam., como por exemplo: o que ela fazia no caos de um pas recm-nascido? No sabia do perigo para visitantes estrangeiros? E de onde herdara aqueles maravilhosos olhos verdes? Ou melhor, "de quem" era o termo correto.
Algo dentro dele despertava. Algo profundo, primitivo.
Christopher passou a lngua pelos lbios secos e tentou sorrir, mas por algum motivo indecifrvel seus msculos faciais no quiseram funcionar.
	Voc... bem... eu...  O fato de parecer estar com a lngua amarrada confundia-o. Respirou fundo e fez outra tentativa:  No pude deixar de ouvir sua conversa. No falo o idioma local, mas percebi que talvez esteja com alguma dificuldade.
A inflexo dada ao comentrio dava-lhe um tom inquisidor. Queria que a moa confiasse nele. E era a ltima coisa que devia desejar naquele instante.
Entretanto, Christopher estava intrigado demais pela garota de cabelos avermelhados para dar ouvidos  lgica.
Mary Hellen no pde conter o sorriso. Aquele homem, um estranho, expressava preocupao com ela. Sentiu-se tocada.
O que, porm, despertou-lhe o riso, foi a constatao de que era aquele o homem que vira estudando a xcara de caf com tamanha ateno assim que ela entrou no restaurante.
Recordou ter pensado que tratava-se de uma pessoa com uma preocupao muito grande. Entretanto, l estava ele querendo saber de seu problema. A idia aquecia-lhe a alma, para dizer o mnimo, e lhe revelava algo a respeito do rapaz. E era muito importante.
Mas Mary Hellen nem sonharia em acrescentar mais peso ao fardo daquele homem.
	Obrigada por sua gentileza, mas no h nada com que se preocupar.  Esperava que seu tom apreciativo fizesse-o entender como se sentia acerca de sua preocupao.
Estendeu a mo, tocou-o com delicadeza no brao e, sem entender por que, viu-se sem fala, como se um choque eltrico a tivesse atingido.
Tivera a inteno de lhe garantir que ficaria bem. Quis expressar que no havia nada que no pudesse solucionar sozinha. Entretanto, sentiu a firmeza da musculatura debaixo da manga do terno e um calor to perturbador...
Sua pele queimava a partir do pescoo e faces. Precisou de toda sua fora para romper o contato.
	Eu... eu...  Mary Hellen parou de falar por um instante. Engoliu em seco e tentou de novo:  Ficarei bem.
Mary Hellen no sabia se tentava acalmar o estranho ou a si mesma.
Sentia-se mortificada pela reao involuntria. Nunca vira antes aquele moo. Coisas assim no aconteciam com ela. O homem poderia julg-la uma moa ftil que...
Naquele instante seu estmago reclamou de fome em um tom audvel, o que a embaraou. Mary Hellen, sem se dar conta, pousou a mo na barriga e balbuciou:
	Desculpe-me...
Christopher achou graa, mas nada havia de provocante em sua expresso ao dizer, com suavidade:
	Eu gostaria de convid-la para almoar, mas... nem mesmo sei seu nome.
	Mary Hellen.  Sua voz soou longnqua at mesmo para seus prprios ouvidos.  Mary Hellen Ritter.
Ela viu-se analisando o rosto atraente e msculo. A boca sensual, que sorria de modo to charmoso, o rosto bem barbeado, o nariz reto, os olhos castanho-escuros com clios densos e sobrancelhas grossas, e, por fim, a testa, maculada por pequenas rugas de preocupao.
Seus cabelos eram cor de caf, e brilhavam. Alguns fios errantes curvavam-se sobre a testa, e Mary Hellen teve vontade de ajeit-los com os dedos. Aquele jovem era muito atraente.
De sbito percebeu que arfava e que, pior ainda, encarava-o. Olhou para o lado.
Mas ele, maravilhoso como era, retomou a conversa como se nada tivesse acontecido:
	Bem, Mary Hellen, deixe que eu lhe oferea um almoo.
	Imagine... Eu no poderia impor minha presena.
	Bobagem! Seria uma imposio se voc estivesse me impedindo de fazer algo. A verdade, Mary Hellen,  que estaria me fazendo um grande favor.
Mary Hellen analisou-o, certa de que ele estava prestes a dar alguma informao acerca do que o preocupava. Mas isso no ocorreu.
	...se permitisse que eu lhe pagasse uma refeio.
Mary Hellen sabia que nem devia considerar a oferta.
Aquele era um bom sujeito, simptico e atraente. Algum que no precisava ouvir suas queixas.
Alm do mais, tinha de encontrar um emprego, naquele dia, e no teria sucesso algum tagarelando ali com um homem simptico e atraente.
Mais um resmungar de seu estmago, e ambos sorriram.
	O que me diz? Almoar comigo? Vai me contar o que a est preocupando?
Mary Hellen suspirou. Estava com fome. E ao deixar que ele a convidasse para o almoo, estaria tomando uma boa deciso em termos financeiros.
	Apenas se voc me disser como se chama. E... se tambm me contar o que o que o entristece.
	Sou Christopher Kimball.
A expresso de surpresa no semblante msculo permaneceu, ao se acomodarem  mesa, com os cardpios na mo.
	Diga-me, como sabe, Mary Hellen?
	Como sei que voc est com problemas? Poder-se-ia dizer que sou muito observadora.
Christopher assentiu, parecendo aceitar a explicao. Por isso, Mary Hellen decidiu ser bastante honesta.
	Logo que passei pela porta, avistei-o analisando a xcara de caf, como se contivesse algum mistrio enigmtico que voc, a todo custo, tentasse desvendar.
Christopher riu, um dos sons mais agradveis que Mary Hellen j ouviu.
	Certo.
O garom anotou os pedidos.
	Fale, Mary Hellen, o que houve entre voc e o gerente deste estabelecimento?
O suspiro que Mary Hellen expeliu soou exausto at mesmo para ela.
	O homem estava recusando meu pedido de colocao.  muito difcil para uma mulher encontrar trabalho em Kyreznvia.
Christopher franziu a testa.
	Bem, e o que voc est fazendo desempregada neste pas? Como sobrevive?
	Estava trabalhando. Ensinava ingls a diversos grupos de crianas. Os oficiais do novo governo queriam lhes dar uma educao melhor. Era algo que o "pas-me" jamais poderia lhes oferecer, e fazia parte dos planos primrios dos novos lderes. Fui includa neles. Eu e cerca de uma dzia de outros professores de ingls.
Mary Hellen arqueou as sobrancelhas.
	Mas tudo isso mudou ontem, quando os recursos para o programa foram cortados sem aviso prvio,  Passou a cochichar ao acrescentar:   provvel precisem de dinheiro para formar um novo exrcito ou algo assim.
	Voc tinha um contrato?
	Claro. Mas no vale muita coisa.
	Ora, algo deve poder ser feito!
A paixo no tom ultrajado a alegrou, Christopher Kimbali exalava simpatia.
	Decerto podem ser obrigados a honrar o acordo que fizeram.
	Eu poderia lutar, Christopher, Mas isso demandaria muito dinheiro e mais tempo do que eu possuo. Decidi que o melhor para mim ser aceitar a perda e encontrar outro trabalho para obter o suficiente para cobrir as despesas com a viagem at meu novo emprego.
	E onde ser? Ela sorriu, tmida.
	Primeiro, preciso encontr-lo. Ento, poderei lhe contar.  Mas...
	Olhe, est tudo bem. Tenho viajado pela Europa ensinando ingls h cinco anos, desde que me formei na faculdade. Algo parecido j me aconteceu antes; no to de repente, talvez. Mas ocorreu. Sobreviverei. Algo acontecer, estou certa disso.
O franzir de testa de Christopher mostrava seu ceticismo.
Mary Hellen soube que discutiria com ela, mas o garom chegou com um prato cheio de comida.
Ela apanhou uma poro com o garfo e comentou:
	Bem, j sabe o que ocorre comigo. Agora  sua vez.
Antes at mesmo de Mary Hellen ter tempo de mastigar a pequena poro de batata, j segurava uma fotografia da garotinha de Christopher, como ele chamava a criana pela qual viajara por metade do globo para adotar.
Mary Hellen ouviu-o resumir a histria o mais rpido possvel.
Relatou como nos Estados Unidos disseram-lhe que sua condio de solteiro no era problema algum, mas as regras haviam mudado. Fazia pouco fora encorajado a permanecer no pas com a esperana de que o governo revertesse a deciso.
Enfim, Mary Hellen teve de apoiar o garfo no prato. Em sua garganta formou-se um n que no a deixava engolir direito.
	No sei o que fazer, Mary Hellen. Tenho meu prprio negcio e  por isso que posso ficar por aqui alguns dias. Mas no poderei deixar minha empresa desacompanhada por muito tempo. No sei o quanto mais poderei aguardar at que o governo reverta a deciso tomada. Vou ao Departamento de Servios  Infncia duas vezes por dia. Explico a todos que puderem me ouvir que ser melhor para Ekhatherina ir para casa comigo. Mas, at o momento, no consegui convencer ningum.
A dor e preocupao em seu olhar eram de partir o corao.
	Voc j viu Ekhatherina? J passou algum tempo com ela?
Christopher fez sinal negativo com a cabea, e sua ansiedade pareceu aumentar.
	Disseram que a adoo est sendo muito questionada, por isso no deixam que nos encontremos ou criemos laos. Juram que esto apenas tentando poupar a ns dois da dor da separao. Compreendo isso, mas, Mary Hellen, eu j estou ligado  criana, e isso comeou
semanas atrs. Sofro por no poder t-la comigo.
Os maxilares dele ficaram tensos, e Christopher evitou fit-la. Mary Hellen teve certeza de que ele estava prestes a chorar.
Aquele homem sofria, e muito. E por causa de uma garotinha que nem sabia de sua existncia.
Ainda.
Sua dor despertou algo em Mary Hellen. No sabia bem o que era. Um impulso a impeliu a agir antes que at mesmo tivesse tempo de ponderar sobre as consequncias de seu comportamento.
	Bem, Christopher  murmurou, trmula, sentindo um frio na barriga.  Se para realizar esse sonho voc precisa apenas de uma esposa, eu me sentiria feliz em
casar com voc.

CAPTULO III


Mary Hellen no podia acreditar nas palavras que saram de sua boca. Simplesmente entreabrira os lbios e a estranha oferta fora proferida.
Sabia o motivo de ter feito a sugesto de casamento. Sua motivao era-lhe muitssimo clara.
Deu outra espiada na garotinha da foto, Ekhatherina. A criana de olhos escuros estava s no mundo. A simples idia lhe despertava recordaes dolorosas, que ameaavam faz-la chorar, engoli-la por inteiro, caso as acalentasse por tempo demais. Piscou diversas vezes e afugentou as conjecturas melanclicas.
Mary Hellen no conhecia Ekhatherina, mas sentia uma afinidade incrvel com a menina. Se pudesse ajudar a resgatar uma nica alma solitria...
Dessa vez seu tom de voz foi mais forte ao repetir:
	Eu ficaria feliz em me casar com voc, Christopher.
Ele nada disse, os olhos arregalados demonstrando o tamanho de sua descrena. Evidente que estava to atnito com a oferta quanto ela. Mais at.
Mary Hellen, ento, sentiu mais confiana, certa de que tomava a deciso correta.
	Ora, no estou me oferecendo para ser sua parceira por toda a vida. Voc precisa apenas de uma esposa durante uns tempos, certo? S para que possa adotar Ekhatherina.
 Sorriu.  Desse modo, conseguiremos um daqueles divrcios rpidos to famosos em alguns Estados da Amrica do Norte. No poderia ser mais simples, no acha? Christopher demorou um pouco para responder:
	Por qu, Mary Hellen? Voc nem mesmo me conhece! A intensidade do olhar dele deixou-a encabulada.
	Isso no  nada...
Christopher inclinou-se para a frente e tomou-lhe a mo. O calor da pele dele causava arrepios a todo o corpo de Mary Hellen.
	No  nada?  Christopher repetiu, baixinho.  Pois acho que  um comportamento grandioso. Maior do que voc possa imaginar.
O corao dela disparou.
	Ento, diga-me, Mary Hellen. Conte-me o motivo dessa atitude to monumental e inesperada.
Com a mo livre, Mary Hellen ajeitou a cabeleira e depois olhou pelo salo. Era um gesto de nervosismo, apenas para ter tempo de raciocinar antes de falar.
Christopher no compreenderia suas razes. No entanto, talvez viesse a compreender. Mas ela gostaria de se expor tanto a um estranho?
No sabia. Se Christopher decidisse aceitar seu oferecimento, eles se casariam, ela o acompanharia para pegar a filha e at mesmo poderia ir com os dois ao aeroporto.
Em breve, entretanto, pai e filha estariam voando rumo ao oeste em um grande avio... e Mary Hellen nunca mais tornaria a ver aquele homem. Sendo assim, por que deveria lhe apresentar a parte mais dolorosa de seu passado?
No devia, decidiu, cerrando os lbios. Inalou profundamente e procurou fazer uma expresso alegre ao fit-lo.
	Olhe, Christopher, eu posso ajud-lo. Deixe-me fazer isso.
	Mary Hellen, o homem do Departamento de Servios  Infncia, aquele que rejeitou meu pedido de adoo, ofereceu-se para encontrar uma esposa para mim. Por uma taxa,  claro. Meros cem dlares. E tudo o que uma esposa fictcia vale nos dias atuais?
Mary Hellen abriu a boca, horrorizada e surpresa.
	Eu recusei  prosseguiu Christopher, com rapidez.  Anos atrs decidi que casamento no faria parte da minha vida.
Imvel, Mary Hellen limitava-se a imaginar o que teria acontecido para for-lo a tal concluso. "Anos atrs", Christopher dissera. Mas parecia to jovem! Mais velho do que ela, sem dvida, mas mesmo assim jovem. No incio da casa dos trinta anos, achava. Pelo visto, novo demais para privar-se de relacionamentos amorosos e compromissos duradouros. O que teria ocorrido para...
Christopher riu de si mesmo por aquele instante de melancolia.
	Contudo, casar-me com o nico propsito de adotar Ekhatherina... Isso eu faria.
Permaneceram em silncio, constrangidos, durante alguns minutos.
	Acho que as pessoas chamariam de casamento de convenincia.  Mary Hellen obrigou-se a sorrir.
	E para voc, o que ? A pergunta a espantou.
	Para mim?
	Caso eu concorde... e ainda no tenho certeza se concordo... como se beneficiar, Mary Hellen? O que poderei fazer em retribuio?
Mary Hellen aprumou-se e soltou a mo que ele ainda segurava.
	No espero nenhum benefcio.
	Mas seria justo!
	E desde quando a vida  justa?  O sorriso dela no continha muito humor.  A situao em que estou agora bem responde a esta questo.
	Oh, sim, sua situao... Hum... Tive uma idia! E se eu lhe pagasse pelos problemas em que se envolver?
Mary Hellen fez um movimento involuntrio, como se tivesse levado um tapa no rosto.
	No aceitarei dinheiro seu. No foi por isso que fiz a proposta.
Christopher ergueu as mos, apressando-se em corrigir o insulto.
	Eu no havia sugerido isso. Est bem. O que acha de deixar-me pagar por suas despesas de viagem para o prximo local aonde for dar aulas de ingls? Passagem de avio, hotel, refeies...
	No. No poderia deix-lo fazer isso.  muito caro.
	Tolice! Se este ser um verdadeiro casamento de convenincia, deve ser conveniente para ns dois, certo?
	Mas...  comeou a falar, porm Christopher silenciou-a com um aceno.
	Nada de "mas". Mary Hellen, tenho estado neste hotel h dias. Vi-me prestes a desistir. Voc me deu esperana, fez uma oferta para realizar meus sonhos. Se decidir mesmo ir adiante no que props, me tornar pai. O pai de Ekhatherina. No percebe o que isso significa para mim e para aquela garotinha? Tem de deixar que eu a recompense de alguma maneira. As despesas de viagem sero o mnimo que poderei fazer. O mnimo!
Christopher era persuasivo. Com aquela conversa de realizao de sonhos e de tornar-se pai... Sim, era muito persuasivo, decidiu Mary Hellen. Enfim, a rigidez em seus ombros suavizou, e ela voltou a sorrir.
 Bem, Christopher, confesso que no estava com vontade de passar os prximos meses trabalhando como garonete.
As pupilas dele cintilaram de excitao.
	Mal posso acreditar, Mary Hellen! Eu vou me casar!
A emoo dele a contagiou. A sbita animao com o casamento aps ter declarado sua averso ao compromisso deixava-a feliz.
	Serei o pai de Ekhatherina!
Mary Hellen sentiu a garganta ficar seca. Estava decepcionada. Claro, a animao de Christopher fora apenas por causa da adoo da menina. Como pudera ser to tola em imaginar em algo mais?
	Sim.  Fez o possvel para imprimir certa alegria  entonao.  E eu encontrei um modo de chegar ao meu novo local de trabalho. Onde quer que seja.
O sorriso de Christopher era muito sensual ao estender os dedos na direo dela.
	E ento? Temos um acordo? Ajudaremos um ao outro?
Aps uma breve hesitao, Mary Hellen selou o pacto com um cumprimento.
	Sim, temos.
Uma sensao estranha a assaltou. Encontrara uma soluo para seu dilema. A resposta viera, assim como soube que viria. E com aquela soluo, recebia a oportunidade de ajudar algum.
Devia estar esfuziante. Mas no estava. Ao contrrio, experimentava uma estranha e intensa tristeza. E isso a confundia demais.
	Ah, o amor  to... como eu diria... grandioso!
Mary Hellen acabara de conhecer Viktor, o tradutor que Christopher contratara ao chegar ao pas. O jovem concordara em comparecer  cerimnia matrimonial e agir como a necessria testemunha.
Viktor era muito espirituoso. Claro, a opinio de Mary Hellen podia estar sendo colorida pela dvida que experimentava, junto com um pensamento mais aprofundado a respeito do que fazia.
Estaria mesmo agindo de maneira correta ao casar-se com um perfeito estranho?
"Evidente que sim!"
Mas ento Viktor, muito alegre, proclamou ao mundo, em voz bem alta:
	O amor  maravilhoso!
Toda aquela conversa sobre sentimentos nobres a deixava com os nervos  flor da pele. E, pelo que podia observar, Christopher tambm ficava cada vez agitado.
	Eu j disse, Viktor  Christopher falou.  Esta unio no tem nada a ver com amor.
Viktor ps-se a sussurrar:
	Mas, sr. Kimball,  de mau agouro no falar da mais poderosa das emoes no dia de um enlace.
Aps um momento de hesitao, prosseguiu:
	No precisa ser seu amor o que proclamei. Pode ser em relao a outra pessoa. No entanto,  hbito exaltar e glorificar o amor, afeto e devoo... todos os assuntos do corao, enfim, em um dia como este.
A nvoa que parecia ter baixado sobre Mary Hellen no decorrer das quarenta e oito horas necessrias  espera oficial para a cerimnia estava mais intensa. "Mau agouro e um casamento sem amor. Nossa, isso resume a situao com mestria!"
Ora, mas por que Mary Hellen sentia-se to... vamos dizer assim... condenada a uma sentena terrvel? No fazia sentido. Olhou para Christopher e viu que seu "noivo" tambm sofria do mesmo mal,
Viktor foi adiante, sempre com alegria:
	Vejam ali.  Apontou para um homem e uma mulher sentados em um banco prximo.  H amor e compromisso no modo como um segura a mo do outro. E l...  Indicou outro casal.  O beijo que esto partilhando  doce e puro.
Viktor pendeu a cabea de leve para trs e suspirou.
	Ah, sim, o amor  grandioso!  arrematou o rapaz, comeando a tornar-se repetitivo, na opinio de Mary Hellen.
Christopher fitou-o com a testa franzida.
	Maus pressgios  Viktor advertiu-o com voz musical.  E j que vocs no esto tendo uma cerimnia tradicional...
	Aquelas festas prosseguem durante dias  Mary Hellen comentou.
	Bem, ento voc deve no mnimo concordar comigo nisso.
Aps um suspiro impaciente, Christopher assentiu:
	Sim, Viktor. O amor  grandioso. Isto est de acordo com os costumes?
	Ter de estar.
Ento, o intrprete arqueou as sobrancelhas para Mary Hellen, aguardando uma resposta.
	Agora voc est pressionando demais  Christopher queixou-se ao jovem.
Mary Hellen pde apenas sorrir. O que esperavam dela? Estava se casando, sem msicas, flores, alianas ou um lindo vestido.
E at mesmo seu sorriso forado esmoreceu diante desse pensamento.
O que havia com ela?
Ambos optaram pela simplicidade. Seria melhor assim. Afinal, msica, flores, alianas e um belo vestido de noiva eram para pessoas que queriam mostrar aos familiares e amigos o que sentiam pelo futuro cnjuge.
No amava Christopher. Tampouco ele a amava. Sabia disso. "Sendo assim, qual o problema?"
"Uma mulher no tem o direito de esperar um pouco de mimo no dia de seu matrimnio?", uma voz interna indagou. "No", veio a negativa firme e silenciosa, bastante racional. "No nessas circunstncias."
Ao dirigirem-se ao prdio que abrigava o local de realizao de unies civis, Mary Hellen simulou um sorriso artificial.
O corredor era longo e decorado com mau gosto, mas ela e Christopher sabiam o caminho a percorrer, pois haviam ido at l para registrar o pedido no mesmo dia em que Mary Hellen lhe fizera a proposta.
A sala encontrara-se lotada, na ocasio, assim como no presente momento.
Parecia que os cidados de Kyreznvia no se sentiam perturbados pela situao catica do pas. Ao contrrio, as pessoas dali davam a impresso de estarem entusiasmadas pelo nascimento de sua nao e mostravam a excitao de diferentes maneiras. O casamento parecia ser uma delas.
Pediram para Mary Hellen, Christopher e Viktor se sentarem. Acomodaram-se na ala de espera lotada de casais afetuosos e risonhos. Mary Hellen via muito bem que o amor era o motivo principal da unio daqueles casais.
Decerto, havia no mnimo uma dzia de outros motivos para as pessoas se casarem. Mary Hellen j vivera em diversas culturas para saber disso.
Em alguns pases, os enlaces ainda eram planejados pelos pais dos jovens, s vezes quando eram apenas bebs ainda. Eram como relacionamentos de negcios por toda a vida, embora muitos dos rapazes e moas vez ou outra acabassem desenvolvendo profundo afeto pelos companheiros que lhes foram escolhido.
As mulheres, nessas situaes, no iniciavam a unio apaixonadas, mas decerto sentindo-se necessrias... queridas.
Essa nica palavra bastava para deixar Mary Hellen com as mos frias. Comeou a entrar em pnico. Foi quando sentiu o olhar intenso de Christopher pousado nela. Encarou-o.
Embora no houvesse como Christopher saber o que lhe ia em mente, era lgico que notava que algo a perturbava. Talvez, com cavalheirismo, ele decidisse recusar sua oferta. Era possvel que no fosse tarde demais para Mary Hellen escapar do tolo arranjo.
Christopher inclinou-se e sussurrou a seu ouvido:
	Sei que est repensando a situao, Mary Hellen. Pressenti isso durante toda a manh. Tambm me sinto esquisito a respeito.
Aps um instante evitando seu olhar, Christopher respirou fundo e fitou-a.
	Mas, se no prosseguirmos com nosso arranjo, no deixaro que eu tenha Ekhatherina.
No instante em que o nome da garotinha passou por aqueles lbios, Mary Hellen estendeu a mo e tocou-o no brao.
	Est tudo bem  garantiu-lhe, no se sentindo mais to insegura.  Estou apenas um pouco nervosa. Ficarei bem.
O sorriso de Christopher foi tnue, mas sua gratido, lmpida qual o mais fino dos cristais.
Pouco aps a breve conversa, foram chamados pelo homem que os casaria. No pas, era o equivalente a um juiz de paz. A hesitao e ansiedade permaneciam em Mary Hellen, embora estivesse ocupada demais explicando a Christopher tudo o que era dito para se concentrar na incerteza.
Quando o celebrante lhes perguntou se ambos estavam ali de livre e espontnea vontade, Mary Hellen afirmou, com meiguice, na lngua local:
	Sim.
Ento o juiz repetiu a pergunta a Christopher.
At mesmo Viktor teve de responder a indagaes acerca dos dois.
Houve um momento mais ameno quando Christopher atrapalhou-se com as palavras no idioma da Kyreznvia, e todos riram. Aps uma segunda tentativa, conseguiu expressar-se e, por fim, foram declarados marido e mulher.
Viktor cutucou Christopher com o cotovelo.
	Beije-a!
Toda a sala quedou em silncio. Christopher virou-se para Mary Hellen, olhou para o homem que os havia casado, depois para Viktor, e de novo para Mary Hellen.
Por um instante, ela achou que Christopher se negaria a cumprir aquele ritual em particular. Sentiu um frio no estmago, a ateno migrando dos olhos questionadores  boca dele, e retornando a seus olhos.
Mary Hellen temia que Christopher a beijasse. Contudo, tambm sentia o mesmo quanto  opo oposta. A confuso e o caos de tais conjecturas faziam sua cabea girar.
Christopher virou-se na direo dela e de repente seus lbios pressionavam os de Mary Hellen. O beijo foi firme, embora gentil, caloroso e...
Terminou quase antes de realmente comear. Mary Hellen sentiu-se aliviada e decepcionada. Jamais experimentara uma juno de emoes to dspares.
	Vamos  disse Christopher, o sussurro rouco contra sua orelha.
Mary Hellen sentia-se como se estivesse no corpo de outra pessoa, vendo Christopher apertar a mo do juiz de paz, sorrindo com frieza enquanto o homem proferia desejos de felicidade para todo o sempre de um modo que ele no compreendia. Aps aceitar alguns papis do celebrante, o marido de Mary Hellen tocou-lhe o cotovelo e conduziu-a para a porta.
Seu marido...
Mary Hellen arfou. Sentia-se meio dopada, e estava to trmula!
O que era ridculo. Fazia interpretaes exageradas das sensaes tolas que passavam por sua mente. Mas eram emoes muitssimo fortes, o que a surpreendeu. Pareciam no ter a menor inteno de ir embora, e faziam-na respirar com dificuldade.
Mary Hellen e Christopher passaram pela porta frontal e foram recepcionados por raios brilhantes de sol. Ela inalou o ar da tarde, tentando manter a compostura.
	As pessoas no Departamento de Servios  Infncia esperam por ns, Mary Hellen. Voc vir comigo?
	Claro, Christopher.
Ele virou-se para Viktor.
	Bem, meu amigo, gostaria de agradecer por toda a ajuda.
	Isso soa como um "adeus", sr. Kimball.
Christopher deu de ombros.
	Mary Hellen poder traduzir para mim, ento eu achei...
	Oh, no!  Viktor protestou.  Desejo ficar com voc at o final. Quero conhecer aquela garotinha.
A antecipao cintilando nas pupilas de Christopher emocionou Mary Hellen e dissolveu seus sentimentos obscuros. O sonho daquele homem estava prestes a se realizar. No podia culpar Viktor por querer estar junto quando tal ocorresse. E ela estava feliz por fazer parte daquilo tambm.
	Bem  Christopher falou a ambos , desse modo, vamos buscar minha filha.
Christopher perambulava de um lado para o outro do escritrio.
	Por que esto demorando tanto? A papelada para a adoo estava em ordem desde o comeo. Queriam apenas que eu tivesse uma esposa. Tenho uma. O que acontece agora?
O jovem rosto de Viktor demonstrava toda sua preocupao e comiserao ao consultar o relgio pendurado na parede.
Mary Hellen deixou o olhar seguir o marido em cada movimento. Contemplava-o o mximo possvel. Aps aquele dia, nunca mais tornaria a v-lo. Queria algumas recordaes para levar consigo quando partisse.
No era tola o bastante para acreditar que apaixonara-se por Christopher Kimball desde o momento em que o encontrou no restaurante alguns dias atrs.
Ele ainda era um desconhecido. Mary Hellen sabia apenas que Christopher amava uma garotinha que nunca vira cara a cara. E fora o bastante para convencer Mary Hellen de que era um homem extraordinrio.
Quis ajud-lo, e o fizera. Devia estar se sentindo realizada. Mas ento por que estava em conflito?
	Acha que esto questionando o casamento?  Christopher quis saber.
O medo dele atingiu a alma de Mary Hellen.
	E por que deveriam?  Ela baixou a entonao e acrescentou:  No fazem idia de que ns dois fizemos um... um... uma barganha.
Entretanto, Mary Hellen nem ao menos supunha o que acontecia atrs da porta fechada.
	Eles enviaram algum para buscar sua menininha  Viktor falou com mais confiana do que sua expresso refletia.  Tenho certeza.
Christopher continuava a caminhar de um lado para o outro.
Mary Hellen virou-se para observar a paisagem da janela.
Nesse instante, a porta da sala de espera se abriu, e o funcionrio do Departamento de Servios  Infncia entrou com uma criana de cabelos escuros nos braos. Cruzou o ambiente e, sem dizer uma palavra, estendeu-a a Christopher.
Tudo ficou imvel, o silncio, absoluto.
Mary Hellen podia ouvir o prprio corao batendo a um volume impressionante.
	Ekhatherina...
A euforia no murmrio provocou um arrepio pela espinha de Mary Hellen. A felicidade e o alvio faziam os belos olhos de Christopher cintilarem e ficarem rasos d'gua.
Mary Hellen teve de morder o lbio para no chorar. Viktor tambm estava muito emocionado, pois seu pomo-de-ado se contraa.
Depois de mais algumas formalidades, o homem do governo cumprimentou Christopher e despediu-se.
Viktor aproximou-se, sorriu de um modo todo especial para a menina e tocou-lhe o queixo.
	Voc  uma menininha de sorte. Desejo-lhe muita felicidade, sr. Kimball.
	Obrigado por tudo, Viktor.
Os homens trocaram apertos de mo.
	Se voc vier a minha cidade de novo, sr. Kimball, por favor, procure por mim.
Christopher assentiu.
	Pode apostar que o farei.
O rapaz fez um aceno para Mary Hellen e se foi.
Seguiu-se um momento de estranha quietude. Mary Hellen percebeu que Ekhatherina parecia insegura, uma reao muito natural para uma criana, naquelas circunstncias.
As adorveis ris escuras da menina mostravam como se sentia perdida, mas Mary Hellen sabia que muito em breve brilhariam de adorao e amor por Christopher. Os dois desenvolveriam um forte lao de pai e filha. No tinha a menor dvida disso.
	Voc quer que eu os acompanhe at o hotel?  ofereceu-se, solcita.
	Ficarei aqui durante algum tempo, Mary Hellen. Quero dar a Ekhatherina algum tempo para acostumar-se comigo.
Mary Hellen camuflou a decepo atrs de um sorriso largo.
	Compreendo
Christopher queria ficar sozinho com Ekhatherma. Isso era bvio.
	Ser um pai fabuloso, Christopher Kimball. 
Ento ele fez algo inesperado: estendeu o brao e, com toda a delicadeza, acariciou-lhe a face. O momento era mgico, especial, e Mary Hellen saboreou cada delicioso segundo.
	Isso no teria acontecido sem voc, Mary Hellen. O sorriso dela ampliou.
	Fiquei muito feliz em poder ajudar.
	Voc tem meu carto. Ligue-me assim que encontrar o prximo local onde dar aulas. Farei com que chegue at l, e na primeira classe.
Tanta generosidade causou-lhe riso.
	Ora, mas eu no sou uma garota de primeira classe...
	Sim, voc , Mary Hellen Ritter.
Ela ficou triste quando ouviu-o falando seu sobrenome de solteira. Entristecia-a constatar que Christopher no pensava nela como a sra Mary Hellen Kimball.
Mas que tolice! Por que deveria?
	Pode estar certa de que voc pertence  primeira classe, sim, senhora.
Mary Hellen apenas encarou-o por um instante, apreciando o calor daquele toque. E, por um breve momento, sentiu-se necessria. Querida.
A emoo que a tomava num crescendo ameaava faz-la desabar em prantos a qualquer momento.
Deu um passo para trs e piscou para esconder as lgrimas antes que Christopher notasse. Aquilo em nada se referia a ela. Pertencia a Christopher e a Ekhatherina.
	 uma felicidade, para mim, ter podido auxili-lo, Christopher.
Olhou para os dois e, naquele segundo, teve certeza absoluta de que agira com acerto casando-se com aquele homem e, assim, permitindo-lhe adotar aquela criana to necessitada.
No resistiu e acariciou os dedinhos de Ekhatherina.
 Seu papai lhe dar uma boa vida, meu amorzinho.
Em seguida, repetiu as palavras no dialeto nativo da criana.
A sombra de um sorriso brincou nos lbios da menina, antes que o misto de confuso e temor retornasse a seu semblante.
Ekhatherina ficaria bem, Mary Hellen estava certa disso. Com um pai amoroso como Christopher, como poderia ser diferente?
Voltou a fit-lo. Por alguma estranha razo, no queria ir embora. Mas era hora.
Incapaz de dizer "adeus", apenas acenou. E deixou-o sozinho com Ekhatherina.

CAPTULO IV


Christopher concluiu que no havia uma criana mais adorvel e preciosa em todo o mundo que a sua. Podia estar exausto, mas, ao sentar-se em uma cadeira de seu quarto de hotel, o corao batia como louco e um n travava-lhe a garganta.
Aquilo era real. Seu sonho, enfim, se tornara realidade. Era pai. "O papai de Ekhatherina!"
Cerrou os dentes para obrigar-se a conter as emoes. Precisava ficar composto e relaxado, pelo bem da menininha.
Diversas vezes desde que deixaram o Departamento de Servios  Infncia naquele dia a pequena esteve prestes a chorar. O queixinho tremera, os olhos lacrimejaram, mostrando seu temer. Mas em cada vez Christopher fora capaz de distra-la e evitar o pranto, com rapidez e eficincia.
Usara o que estivera  mo: um pedacinho de gelo do refrigerante, uma colher da mesa de jantar, o novo chocalho que comprara para ela. Mas manter a mente de Ekhatherina ocupada com novas e interessantes coisas era trabalhoso.
Mesmo com as dificuldades, contudo, Christopher era incapaz de conter-se diante da felicidade que lhe enchia o peito. Experimentou a sensao de plenitude no instante em que Ekhatherina foi colocada em seus braos. A adoo parecia-lhe a atitude mais correta que j tomara.
Sua filha estava sentada na cama de abrir que a arrumadeira do hotel trouxera. No havia um bero disponvel. Ah, bem, pensara Christopher, seria apenas por uma noite. Estariam voando para os Estados Unidos no dia seguinte.
Ekhatherina brincava com o novo chocalho, esboando um sorriso sempre que o objeto emitia algum som. Era barato, mas encantava-a, e Christopher notou que o beb tivera acesso a pouca coisa com que brincar, no orfanato,
Levara-a para comprar duas mamadeiras, um novo vestido, pijama e, claro, fraldas.
Adquiriram alguns brinquedos tambm. Apenas poucos itens pequeninos e coloridos. No queria ter de carregar muita bagagem no avio.
Aquele que Christopher mais gostara fora uma boneca de cabelos ruivos... que fazia-o lembrar-se de Mary Hellen.
Em vrias ocasies naquela tarde Mary Hellen passara por seus pensamentos. A gratido pelo que havia feito era to imensa que Christopher julgava-se incapaz de pag-la.
Bem, veria o que era possvel fazer quando Mary Hellen, por fim, entrasse em contato para que fizessem os acordos para a viagem.
Observou ao redor, recordando como o matinal fizera os cabelos de Mary Hellen parecerem puro fogo. Ficou imaginando o que teria compelido uma mulher a ser to generosa com um total estranho. Ela aceitara casar-se e...
O riso infantil interrompeu suas conjecturas, e a ateno voltou-se para a filha, Christopher gargalhou, feliz por poder ver Ekhatherina se divertindo com o chocalho
No final daquela tarde pai e filha foram jantar no restaurante do hotel. O cardpio no era adequado a crianas, por isso Christopher acabara pedindo diversos tipos de vegetais cozidos, e amassara-os com o garfo.
Ekhatherina comera com incrvel apetite, e Christopher dedicara-se tanto a aliment-la que a galinha  Kiev e o kasha que pedira para si ficaram frios antes que tivesse saboreado uma poro sequer.
Mas aquilo no importava, sobretudo por saber que a fome da filha fora saciada. Entretanto, quando isso aconteceu, Ekhatherina logo perdeu o interesse pela comida, utenslios e guardanapo, e comeou a resmungar.
Por isso, Christopher teve de interromper a refeio para encontrar algo mais que a distrasse. Aprendia mais uma tarefa de pai: conformar-se com comida fria.
A hora do banho fora uma experincia  parte. Christopher tirara do rosto e dos dedos de Ekhatherina pedaos de legumes do jantar, tendo a menina o tempo todo gritando de alegria e espirrando gua para todo lado. A camisa dele ficara to molhada quanto a garota.
No todo, fora um dia longo e esquisito. E, embora Christopher ainda experimentasse os efeitos da dose extra de adrenalina causada pela adoo bem-sucedida, tinha de admitir que estava grato por ser hora de ir dormir. Estava exausto.
O colcho onde Ekhatherina estava sentada parecera bem macio, mas, assim que chegou Christopher constatou que era estreito demais para a menina dormir sem o risco de cair no carpete no meio da noite. Por isso, fez o melhor possvel para proteger as laterais expostas, usando os travesseiros de seu prprio leito e os cobertores tambm. E encontrara um travesseiro extra no armrio.
Estudou o compartimento macio que criara em volta da caminha de Ekhatherina e suspirou. Aquilo deveria mant-la segura. Alm do mais, para Christopher no fariam falta cobertas e travesseiros, pois poderia apoiar a cabea no brao, e a noite de vero estava muito quente.
E duvidava que fosse conseguir permanecer muito tempo deitado, de qualquer maneira, porque se via excitado demais com as novidades.
Um riso de puro deleite o fez relaxar um pouco, e o som despertou a curiosidade de Ekhatherina, que fitava-o com seus enormes olhos escuros.
A menina no parecia estar com metade do medo demonstrado no incio daquela tarde. Lidava bem com estranhos, e Christopher suspeitava de que isso advinha de sua experincia no orfanato. Decerto a pequena nunca sabia quem iria cuidar dela no dia seguinte.
Mas Christopher no seria um estranho por muito tempo. A cada oportunidade faria com que estivessem mais prximos. Sentia isso em seu corao.
Ekhatherina deixou o chocalho de lado e voltou a fit-lo. Ento, coou os olhinhos.
Como era linda... E estava exaurida.
	 hora de se deitar, querida.
Falando com suavidade e aproximando-se devagar, Christopher pegou o chocalho e colocou-o fora do alcance da menina. Aos poucos foi baixando as costas de Ekhatherina at p-la deitada no bero improvisado e seguro que havia criado.
Foi quando o lbio inferior do beb tremeu e pareceu prestes a chorar.
	Est tudo bem, anjinho. E hora de descansar. Tivemos um longo dia. Papai tambm est exausto.
Assim que disse a palavra "papai", uma sensao de intensa alegria tomou-o. Era o pai daquela criana. Pegou-a no colo, apoiando a cabecinha contra o ombro, mas as lgrimas dela rolaram. Christopher respirou fundo e sentiu o perfume suave da filha.
	Calma, amor. Est tudo bem.
	Pisne  disse Ekhatherina, o choro tornando difcil a pronncia.
	O qu? Voc quer seu chocalho?  Pegou o brinquedo e balanou-o de leve, mas Ekhatherina apenas ficou mais agitada.
A menina procurou afastar-se dele, soluando. Assustado com a mudana de humor, Christopher, atrapalhado, deixou de lado o chocalho. Pressionou a mo contra as costas dela para que no casse de seus braos.
	Nossa!  falou surpreso, o tom de voz um pouco mais alto do que pretendera.
Ekhatherina chorou mais alto.
	Pisne!  repetiu vezes e vezes, entre soluos.
Christopher pousou-a no colcho, e ela acalmou-se
Mas apenas por alguns segundos. Demonstrava expectativa, aguardando por algo. Logo o pranto voltou a cair. E Christopher sentiu-se, de sbito, inepto.
O aborrecimento de Ekhatherina tornava-se maior a cada instante. Ela queria alguma coisa, sem dvida alguma.
	Est com sede?  Christopher foi at o banheiro onde havia colocado uma mamadeira com suco em um pote cheio de gelo para mant-ia fria.  Aqui est, querida.
Ofereceu-lhe a mamadeira, mas ela a empurrou.
Mais uma vez Ekhatherina repetiu o termo que Christopher no compreendia.
Bem, no queria os brinquedos. Nem mamar.
Uma idia lhe ocorreu... talvez estivesse com calor. De imediato, abaixou-se e removeu os sapatinhos tricotados que comprara naquela tarde.
Mesmo assim, a garota chorava.
Ele verificou a fralda. Seca.
O choro tornou-se mais alto, a ponto de quase ensurdec-lo.
Christopher fez uma pausa, coou o queixo, passou a mo nos cabelos, a sensao de incompetncia aumentando segundo a segundo.
No imaginara que tornar-se pai fosse uma tarefa fcil. Previra que as responsabilidades de criar um ser humano seriam imensas. Mesmo antes de deixar a Amrica do Norte, passara horas planejando o que faria por aquela garotinha quando, enfim, os dois passassem a constituir uma famlia.
Vestiria o beb, cuidaria para que tivesse refeies bem balanceadas, cuidaria de Ekhatherina quando ela estivesse doente. Riria com a menina em momentos de alegria. Ensinar-lhe-ia jogos.
Pegaria vagalumes em noites quentes como aquela. Prepararia biscoitos de manteiga de amendoim com a filha nas tardes frias de outono.
Assistiriam a programas infantis juntos. Ensinaria a filha a contar e a recitar o alfabeto. Seguraria o banco de sua bicicleta, correndo ao lado dela enquanto Ekhatherina aprendia a pedalar e a se equilibrar.
E, quando Ekhatherina tivesse idade suficiente, seria matriculada na melhor escola particular. Christopher faria com que tivesse aulas de piano e bal, e participasse de todas as atividades que a interessassem. Tambm guardaria dinheiro para pagar seus estudos na faculdade.
Esses eram apenas alguns dos planos que fizera durante os dias precedentes  adoo. Porm, o fato de estar ali em p vendo a garotinha soluando, querendo "alguma coisa"... e ele no sabendo o que era...
Christopher achava que seu corao iria se partiria ao meio. E a, entrou em pnico. 
Baixou as plpebras e inalou o ar, sem pressa, uma sombra densa descendo sobre ele. Como pde acreditar que seria capaz de administrar tudo aquilo?, condenou-se. Como achou que seria hbil para assumir a imensa tarefa que era zelar pela vida daquela criana pequenina?
Sua pulsao disparava, mas dessa vez no era pela euforia ou alegria. Devia-se  dvida quanto  habilidade em fazer o melhor por Ekhatherina.
Quando olhou para cima, avistou a boneca de cabelos ruivos que comprara para ela. A boneca que fazia-o lembrar-se de... Mary Hellen. O nome foi sussurrado em sua mente como uma fresca brisa de primavera.
Com certeza ela podia auxilia-lo. Sim, saberia o que Ekhatherina pedia. Seria capaz de ajud-lo a conter as lgrimas da menina.
Fitou o aparelho telefnico e quase desmaiou. No fazia idia de qual o nmero do telefone dela. Nem mesmo se possua uma linha, na verdade. Contudo, sabia qual seu endereo. Pegara a naquele dia em um txi para irem se casar.
Consultou o relgio de pulso e decidiu que no era tarde demais. Ela, na certa, estava acordada. Se estivesse em casa...
Recusou-se a imaginar que seu plano pudesse no dar certo, Mary Hellen em instantes viria ali para ajud-lo, e ia de muito boa vontade.
 Vamos querida  disse com suavidade, sabendo muito bem que Ekhatherina no podia escut-lo por causa do choro.  Iremos dar um passeio de carro.
Mary Hellen sentou-se  mesa da diminuta cozinha de seu apartamento minsculo, O queijo que mordiscava, junto com o delicioso po integral, era seu jantar.
Analisou anncios de emprego observando com ateno a pgina ande eram anunciadas vagas para professores. De modo ausente, estendeu a no e afofou a cabeleira mida.
 Partilhava o banheiro com os outros dois apartamentos do trreo, o que no era to ruim assim. Mas no gostava de ficar muito tempo no chuveiro, por isso lavava os cabelos dia sim, dia no.
Aps saborear o ltimo naco, usou o guardanapo de papel e ajeitou com os dedos as mechas longas e onduladas.
Sempre gostara de deixar os fios secarem ao natural. O calor intenso do secador deixava-os revoltos demais.
Suspirou. Durante toda a noite ocupara-se das mais diversas tarefas: arrumar a casa, que j estava em ordem, lavar algumas roupas ntimas, tomar um banho rpido, jantar, analisar a mesma pgina do jornal vezes e vezes.
Mas o fato de focar-se na rotina simples mantinha sua mente regrada. Prevenia-a de divagar e pensar em seu comportamento to diferente dos ltimos dias. Como o casamento com um homem que jamais vira antes.
Meneou de leve a cabea, constatando que essa no era toda a verdade. O rapaz to atraente com o qual trocara votos diante de um juiz de paz era quem a perturbava, e no o matrimnio em si.
Christopher... Apenas recordar seu nome despertava-lhe uma vvida imagem do belo rosto.
Soube que, ao casar-se com ela, Christopher Kimball a estaria usando. Mas a oferta partira de Mary Hellen. Quisera ajud-lo. No, constatou, quisera ajudar aquela garotinha, a criana com a qual Mary Hellen tinha mais em comum do que desejava admitir.
Entretanto, ao lutar ao lado de Christopher para efetivar a adoo, Mary Hellen sentira uma espcie de lao a uni-los. No era uma total sandice, era? Havia outras razes alm do amor para unir as pessoas. E ela e Christopher haviam encontrado uma: a pequena Ekhatherina.
Fechou os olhos e, sem esforo algum, lembrou-se do olhar de Christopher quando agradeceu por sua ajuda. At tocara-lhe a face.
Ergueu as plpebras. Um temor vago e amedrontador causou-lhe um frio na barriga. A emoo confundia-a e a fez olhar ao redor, como se buscando algo com que ocupar-se, uma tarefa qualquer, que a distrasse.
Levantou-se, levou prato e copo at a pia, lavou e secou-os, guardando-os em uma prateleira. Mas a sensao estranha permanecia na regio do estmago, dando-lhe a impresso de que comera no um delicioso sanduche de queijo, mas algo sem sabor.
O que era ridculo! Ajudara uma rf a encontrar um lar e um homem a adotar uma criana.
Mas Christopher despertara-lhe emoes profundas... as quais no compreendia. A atrao era clara, mas qualquer mulher teria achado aquele moo lindo.
Entretanto, sentiu um medo e uma apreenso intensos. No temia Christopher. No. No era isso, de forma alguma. A sensao vinha de algum lugar dentro dela.
Mary Hellen suspirou e foi para a modesta sala de estar. Ligou o rdio. J era hora de deixar de perder tempo com o assunto.
Christopher Kimball j prosseguia com a vida. Era melhor que ela parasse de recordar o incidente e tambm prosseguir vivendo.
Uma batida  porta causou-lhe um arrepio de apreenso. No costumava receber visitas. Talvez fosse Antonetta. Os saquinhos de ch no armrio da vizinha nunca duravam at o final do ms. Mas Mary Hellen no se importaria em oferecer uma xcara  amiga. Sobretudo naquela noite, quando necessitava tanto de alguma distrao.
Os gritos da criana puderam ser ouvidos mesmo antes de Mary Hellen atender. Ao escut-lo, franziu a testa, confusa, e ainda assim a viso de Christopher e Ekhatherina a seu batente surpreendeu-a.
	Qual o problema?  perguntou, puxando Christopher pela camisa para que entrasse.  O que aconteceu? Ekhatherina se machucou?
	No est machucada, Mary Hellen, mas aborrecida. Quer algo... No pra de dizer o que , vezes e vezes, mas eu no compreendo. Ekhatherina no pra de chorar de pedir sabe Deus o qu.
	E o que ?  Mary Hellen indagou quase aos berros, para fazer-se ouvir sobre os soluos de Ekhatherina,  O que o beb estava dizendo?
	Peez, acho que era isso,
Mary Hellen alisou a perninha da criana,
	Est bem, querida, diga o que est querendo. 
Ekhatherina escondeu o rosto no pescoo de Christopher.
	Que Deus me ajudei  a prece sussurrada dele foi acompanhada por um breve olhar para o teto,  Ekhatherina, amorzinho, est tudo bem, Tudo est bem.
Mas a tenso em sua voz e em cada msculo do corpo descreviam uma situao muito diferente para Mary Hellen, O olhar de Christopher implorava em silncio: Ajude-me! Se tocasse Ekhatherina ou tentasse tir-la de Christopher, tornaria a situao ainda pior. Mary Hellen sabia disso. Decidiu, portanto, que at mesmo dirigir-se  menina quando estava to incomodada era uma atitude errada. Por isso, decidiu concentrar-se em Christopher. Se pudesse acalm-lo, talvez Ekhatherina tambm ficasse mais tranquila.
	Sente-se  falou baixinho a Christopher, apontando para uma cadeira velha e gasta.
	No posso.
Indicou para a garota, Ninava-a para tentar acalm-la. Mary Hellen sentia que a ansiedade dele impedia-o de perceber o vigor com que sacudia Ekhatherina.
	Voc pode e vai se sentar.  Puxou-o pela manga da camisa, aproximando-o da cadeira,
Christopher obedeceu e pareceu mais calmo. Mas as lgrimas de Ekhatherina no cessavam.
	O que eu fao, Mary Hellen? Fale-me como fazer com que ela pare com isso. J est chorando h mais ou menos trinta minutos. Acabar ficando doente.
	Parece cansada...
	Ambos estamos exaustos.
Christopher apresentava olheiras, e o queixo, a barba por fazer. Mary Hellen lembrou-se de como aquela pele estivera limpa, quando ficaram lado a lado e...
"Pare!", ordenou-se.
	Eu temo ter cometido um grande erro.  Christopher era a personificao da insegurana.
O corao de Mary Hellen se contraiu. Estendeu a mo e tocou-o no brao, de leve, tomando cuidado para no encostar em Ekhatherina.
	Eu queria apenas dar uma boa vida para minha filha, Mary Hellen. Torn-la feliz. Mas como poderei fazer isso se nem mesmo sei o que ela quer?
	Voc se sair bem, Christopher. No pode esperar que cada minuto seja um mar de rosas. Ainda mais no princpio. Ekhatherina precisa habituar-se a voc.
	Mas ns nos demos bem esta tarde.
Os trs ficaram sentados por um momento, Christopher buscando apoio em Mary Hellen, e ela, por sua vez, tentando confort-lo e a Ekhatherina. A menina ainda soluava.
Ento, a garotinha fez algo extraordinrio. Pressionou a pequenina palma na face de Christopher e fitou-o direto nos olhos. Por uma frao de segundo, o ambiente ficou em absoluta quietude.
	Pisne.
Christopher encarou Mary Hellen.
	 isso!  disse ele.  Foi o que falou sem parar at agora h pouco. O que Ekhatherina quer?
Mary Hellen achou graa.
	Est pedindo msica. Deseja que voc cante para ela. Quem a colocava na cama no orfanato devia cantar para as crianas adormecerem.
	Cantar? Mas eu no sei cantar.
 Claro que sabe!  Mary Hellen encorajou-o.  Deve recordar algumas canes simples de sua infncia.
Christopher franziu a testa.
	O que acha da msica do alfabeto, Christopher? Todos conhecem essa. Decerto foi como voc aprendeu as letras.
Christopher parecia ctico, mas comeou a cantarolar, assim mesmo, a voz bem baixa mas aveludada.
Ekhatherina acalmou-se, soluou mais uma ou duas vezes e aconchegou-se no peito forte. Em seguida, colocou o polegar na boca.
A viso daquele homem alto e musculoso ninando a garotinha e cantando com suavidade emocionou muito Mary Hellen.
A cena era linda. Cheia de amor... to serena!
No esperara ver Christopher de novo. O contato que antecipara teria sido atravs do telefone ou por correspondncia, assim que ele retornasse aos Estados Unidos.
Mas ali estava, com seus ombros largos e a gloriosa formosura, o que bastava para fazer o pulso de Mary Hellen disparar.
Antes que ele terminasse de repetir o segundo verso da cano, a filha j adormecera como um anjo. Christopher terminou a estrofe, incapaz de se desviar do semblante tranquilo de Ekhatherina. Enfim, exalou um suspiro, parecendo aliviadssimo.
Ele e Mary Hellen ficaram quietos por alguns momentos, ouvindo o respirar compassado de Ekhatherina.
Os olhos castanhos dele tinham expresso to intensa ao fixarem-se em Mary Hellen quanto naquele comeo de tarde, pouco antes de se despedirem. Ela tentou suprimir o arrepio que subiu por sua espinha.
Por fim, Christopher sussurrou:
	Obrigado. Mais uma vez.
	Quando precisar...
A seriedade na expresso de Christopher no se suavizava.
No faa com que a situao parea casual, Mary Hellen. Se voc no estivesse aqui para me auxiliar e me dizer do que minha filha precisava, no sei o que eu teria feito.
	No foi nada...
	Pare com isso!
Ekhatherina se mexeu e os dois ficaram imveis. Mas o olhar intenso de Christopher no deixava o rosto de Mary Hellen, que, afinal, ficou to desconcertada que teve de romper o contato visual. Em seguida, Mary Hellen ergueu o rosto, submetendo-se  expresso solene de Christopher.
            Est bem. Por nada.
Ele nada respondeu, continuando a analis-la, Mary Hellen sentia vontade de se mexer, mas nada fez.
            Voc teria se sado bem, Christopher, sabe disso. Acabaria descobrindo o que era, e em pouco tempo  argumentou, ainda muito encabulada.
	 Em pouco tempo...  ele repetiu. Christopher pareceu ponderar sobre algo. Mary Hellen adoraria poder ler seus pensamentos.
            Sim, Christopher, voc...
            Tenho certeza de que eu me sairia bem. E a tempo. Mary Hellen sorriu. Gostava de sua autoconfiana.
Achava-a muito sedutora, como tudo o mais nele.
A observao a conteve no meio da conjectura. Seu sorriso esmoreceu. Precisava parar com aquilo. O melhor a fazer era ignorar o que sentia por Christopher Kimball.
            timo. Fico feliz por voc estar vendo a situao a minha maneira.
            Mas, at eu ser capaz de perceber as necessidades de Ekhatherina, precisarei de voc, Mary Hellen.
             Como?
           Sugiro que passe a trabalhar para mim. Proponho que viaje para casa comigo e Ekhatherina amanh. Gostaria que estivesse ali para ajudar-me a compreender minha filha. Desejo que a ensine a me entender. A compreender a lngua inglesa, quero dizer. Mary Hellen franziu o cenho.
	Christopher, voc no precisa de mim para isso. Ekhatherina  apenas um beb. Crianas nessa idade aprendem rpido um novo idioma.
	Voc no tem emprego. Deixe que eu lhe proporcione um. Poder ser bab de Ekhatherina. Sua governanta, professora... Minha professora. Chame a si mesma do
modo como preferir, mas venha trabalhar para mim. Ns precisamos de voc.
Mary Hellen sentiu o corao se apertar e a boca ficar seca.
"No, Mary Hellen", uma voz interna advertiu-a. "Nem mesmo considere a possibilidade."
Nada havia para ela nos Estados Unidos. Por esse motivo, viajava por outros pases desde que se formara.
	Voc nem mesmo me conhece, Christopher.
	Sei que foi capaz de deixar de lado os prprios interesses durante dois dias para realizar o sonho de um completo estranho. Voc  uma boa pessoa. Honesta, fiel a sua palavra. Isso me basta, no momento.
	Mas...
	Mary Hellen...
O apelo e desespero contidos na entonao de Christopher e em seu semblante silenciaram os protestos que ela esteve prestes a proferir.
	Mary Hellen... eu preciso de voc!

CAPTULO V

No h nada para voc na Amrica. Mary Hellen. Nada. Foi por isso que...
"Mas Christopher estar l, E Ekhatherina, E eles precisam de voc."
"No pode envolver-se com isso, Mary Hellen. No tem dinheiro para viajar aos Estados Unidos. No tem condies monetrias nem emocionais."
Mary Hellen franziu a testa, ainda no entendendo direito as implicaes da proposta inesperada.
No entanto, antes que pudesse fazer um exame mais profundo, outras idias empurraram para o lado as perspectivas sombrias,
"Olhe para Christopher, garota. Ele ama aquela criana Quer que sua garotinha o aceite. Deseja que os dois se tornem uma famlia. Como pode negar-lhes ajuda?"
"E fcil, basta dizer no!, seu lado racional ordenava. "No se permita envolver-se..."
"Mas eles precisam de voc!"
Naquele momento, Ekhatherina se mexeu. E Mary Hellen observou Christopher erguendo sua grande e forte mo num gesto automtico para acariciar com delicadeza e afeto as costas da menina, confortando-a, ninando-a para que se sentisse segura.
Jamais Mary Hellen vira um homem mostrando tamanha ternura e amor incondicional. Nunca algum mereceu mais a realizao de seu grande desejo de ser pai.
Mary Hellen estava atnita em constatar que a fascinao por Christopher, a qual imaginou ter reprimido com sucesso, mais uma vez aflorava, faminta, ameaando domin-la por completo.
E junto com o encanto vinha o vago temor que experimentara antes, tambm. Algo obscuro e confuso.
Engoliu em seco, tentando se controlar.
No, de jeito nenhum! O que sentia no era atrao. A emoo que deixava seus joelhos bambos relacionava-se ao que ela sentia por Ekhatherina.
Ora, isso era a mais deslavada mentira. Mas Mary Hellen no se importava muito com a verdade absoluta.
Ekhatherina tinha a melhor chance de sua existncia ali, a conscincia de Mary Hellen argumentava, com teimosia. Aquela menininha poderia ter uma famlia, um pai que a queria, adorava-a, importava-se com ela.
E Mary Hellen poderia, mais uma vez, ajudar para que isso se concretizasse.
Pelo bem de Ekhatherina, repetiu-se, as palavras ecoando em sua mente. Ento, assentindo, Mary Hellen encarou Christopher, determinada, e afirmou:
	Est bem. Voltarei  Amrica do Norte com vocs.
O Aeroporto da Filadlfia estava apinhado. Mary Hellen e Christopher, com a filha nos braos, abriam caminho rumo ao desembarque das bagagens.
Os trs acabaram ficando em Kyreznvia por mais um dia para que Mary Hellen pudesse empacotar os pertences, fechar a conta bancria e colocar tudo em ordem.
	Sou uma viajante nata, Christopher  dissera.  Quando criana, nunca ficava por muito tempo em um lugar s. E minha atividade profissional levou-me por toda a Europa.
A posse de muitos objetos no era condizente com seu estilo. Os poucos itens que no pde embrulhar foram doados  vizinha Antonetta, que ficou muito feliz.
	Fico surpresa por voc confugir guardar tudo o que  seu em duas malas, Mary Hellen.
	E uma mochila  acrescentara ela.
Christopher rira, balanara de leve a cabea e murmurara algo sobre nunca ter conhecido algum assim. Bem, isso era bom, Mary Hellen lembrou-se de ter pensado na ocasio, porque tambm nunca conhecera ningum como Christopher.
Ele se pusera a entreter Ekhatherina durante o longo vo. Brincara com a menina o tempo todo, inventando jogos e passatempos. Quando, enfim, Ekhatherina ficou cansada, Christopher cantou baixinho para ela em tom montono, o que fez com que os passageiros das proximidades lhe lanassem olhares estranhos, mas as canes apenas fizeram Mary Hellen sorrir, encantada.
Parecia ter se formado um novo vnculo dela com Christopher desde que concordou em voltar aos Estados Unidos. Como se, tendo Mary Hellen a seu lado para facilitar seu perodo de adaptao  paternidade, Christopher tivesse reunido a confiana necessria para realizar a contento seu desejo de ser um bom pai para Ekhatherina.
A constatao de que ajudava-o a ter mais f em si mesmo era maravilhosa. Aquecia Mary Hellen por dentro.
Fazia parte de seu trabalho como professora transmitir coragem e fazer com que as pessoas se sentissem capazes de fazer o que almejavam.
Aprendera que ao incentivar os alunos com retornos estimulantes, aumentava-lhes a autoconfiana e deixava-os mais animados com o aprendizado.
Encorajar Christopher fora fcil. Era to bvio que ele amava Ekhatherina e queria ser o melhor papai do mundo!
Entretanto, Mary Hellen no queria que Christopher dependesse demais dela. Por isso, fora explcita ao dizer que no poderia permanecer na Filadlfia durante muito tempo. Um ms ou dois, no mximo.
	De quatro a oito semanas  Christopher murmurara.  Acho que a srta. Ekhatherina e eu poderemos desenvolver uma grande amizade nesse curto espao.
Quando chegaram  esteira de bagagens, Christopher estendeu para Mary Hellen a filha adormecida para que pudesse pegar as malas.
Logo viram-se em uma limusine que Christopher contratou no prprio aeroporto, e dirigiram-se para a residncia dele.
	Voc trabalha na Filadlfia?  Mary Hellen quis saber, percebendo que eonhecia muito pouco acerca do homem com quem se casou.
	Na verdade, trabalho em casa. No fica muito distante do permetro urbano.
O cu adquiria diversos tons de vermelho, conforme o sol se punha no horizonte.
	Elaboro sistemas de computao sob encomenda para variados ramos de negcios, Mary Hellen. A tecnologia muda a cada dia, o que cria uma demanda muito alta por tarefas como as que desempenho. Crie atualizei sistemas para empresas por todo o pas e planejo entrar no mercado externo em breve.
	Parece que voc viaja muito.
	No. Com a correspondncia eletrnica da internet, onde se anexam documentos, as mquinas de fax o bom e velho telefone, pouco tenho de sair do meu escritrio. A tecnologia  maravilhosa. E minha mais nova aliada uma cmera de vdeo acoplada ao monitor de meu computador. Posso participar de conferncias e reunies com clientes sem deixar minha cadeira. Claro, vez ou outra, uma emergncia fora-me a viajar. Mas so ocasies raras.
	Entendo.
	Cono desempenho minhas funes em meu prprio lar, tenho o ambiente perfeito para ser um papai muito presente para Ekhatherina.
Christopher sorriu, os dentes alvos tornando-o ainda mais belo.
Mary Hellen perdeu o flego. Uma estranha espcie de calor comeava a surgir dentro dela.
Olhou janela afora, para a paisagem por que passavam. Precisava de alguns momentos para lidar com as chamas do desejo.
	Um papai que fica bastante em casa, ? Pois acho que voc est criando uma boa frase para o novo milnio.
Christopher riu, o som agradvel vibrando no confinamento do automvel luxuoso. Mary Hellen ficou apreensiva ao experimentar mais uma pontada de volpia. Para seu alvio, Ekhatherina escolheu aquele momento para despertar.
A criana abriu os lindos olhos escuros, piscou algumas vezes fazendo careta e suspirou. De imediato sentou-se no colo de Christopher.
	Vejam s quem acordou!  Christopher acariciou o rostinho muito delicado.  Sua soneca foi to longa, querida. Estou com medo de que no durma esta noite.
Mary Hellen sentiu-se grata por a ateno dele estar focada em Ekhatherina. Precisava desesperadamente apagar a sensao de sensualidade.
Ele prosseguiu, falando com a menina:
	Est tudo bem, porm, vamos estabelecer uma rotina, logo, logo.
A ternura em seu tom de voz ao falar com Ekhatherina despertou outra emoo inesperada em Mary Hellen. Sentiu que estava prestes a chorar, e por isso, com rapidez, virou-se para o vidro.
O que havia de errado com ela? Primeiro, viu-se forada a lutar contra uma atrao crescente por Christopher, e agora o simples fato de ouvi-lo deixava-a to emocionada.
Talvez estivesse apenas cansada da longa viagem.
O motorista entrou em uma rua estreita e asfaltada.
	Chegamos  disse Christopher.  Olhe, Ekhatherina. Estamos em nosso lar.
Mary Hellen evitou fit-lo para no deix-lo ver suas lgrimas, mas conseguiu sorrir. Suspirou, aliviada. Estava exausta, s podia ser isso. A fadiga a dominava e a deixava sensvel.
A casa de Christopher era uma bela construo em estilo colonial, erguida a tamanha distncia da rua que de l no se poderiam ver ou ouvir sinais do trfego esparso.
Mesmo no lusco-fusco, Mary Hellen tentava decifrar os contornos conforme se aproximavam.
	Vizinhos?  indagou, curiosa.
Christopher desceu, ajeitou Ekhatherina no quadril e pediu ao motorista que pusesse a bagagem na varanda, diante da porta. Ento, acompanhou a direo do olhar de Mary Hellen.
	No. Ali  o curral. Tenho dois cavalos. Minha propriedade faz divisa com um parque estadual, por isso posso cavalgar... se eu me levantar bem cedo. No gosto de incomodar as pessoas que caminham. Tenho uma gata em algum lugar por aqui, tambm. Chunky s aparece quando est com fome. Contratei um homem para cuidar dos animais e de tudo o mais. Dessa maneira, fico livre para trabalhar. Bob vem todos os dias. No fosse por ele, eu nem teria ficado na Kyreznvia durante todo aquele tempo. Tenho certeza de que Bob cuidou bem de meus animais.
Dois cavalos, pensou Mary Hellen. Aquilo mais parecia um stio do que uma mera casa. E o fato de ser adjacente a um parque aumentava o valor das terras.
A limusine que Christopher contratara, com os macios bancos de couro e o motorista circunspecto, era o veculo mais opulento no qual Mary Hellen j andara.
O negcio de Christopher devia ter muito sucesso para permitir-lhe morar a cerca de trinta minutos do limite urbano de uma cidade de tamanho razovel, considerou, estudando ao redor.
Christopher observou o gramado enquanto o carro era estacionado.
	A grama parece em bom estado. Eu sabia que podia contar com Bob para o que desse e viesse.
Estendeu a mo para pegar uma das sacolas de Mary Hellen.
	Poderia segurar Ekhatherina? Ou prefere uma das malas?
Ela sorriu, embora duvidasse de que Christopher pudesse v-la na penumbra.
	Levarei Ekhatherina e uma mala. E, por favor, no escolha aquela mais pesada para mim.
Christopher conduziu-a para dentro, e depois para a escada, rumo aos quartos.
	Voc ficar com o dormitrio do fim do corredor, Mary Hellen.
	O importante : em qual quarto Ekhatherina ficar?
	Ah...  Christopher colocou no cho a bagagem que carregava e apontou.  Bem aqui. O local est pronto e esperando por ela h semanas.
O aposento era to bonito quanto Mary Hellen previra, decorado com motivos infantis. Em uma das paredes havia o desenho de uma aranha com o semblante muito alegre em meio a sua teia. Outros personagens muito bem desenhados enfeitavam o ambiente.
O piso tinha um carpete macio em tom de azul, e a moblia era branca. A janela mostrava contorno cor-de-rosa. Um pequeno armrio para brinquedos estava a um canto.
Christopher idealizara um lugar perfeito para sua garotinha, e Mary Hellen foi rpida em dizer-lhe isso.
	No posso aceitar os elogios.  Christopher tomou Ekhatherina dos braos de Mary Hellen e colocou-a no cho.  Um decorador veio e fez a maior parte do servio. Mas comprei os brinquedos.
Ekhatherina foi direto para a cadeira de balano e, com um nico toque, fez com que se movesse. Viu-a, atnita, se mexendo, e virou o rostinho adorvel primeiro para Christopher, depois para Mary Hellen.
Ambos acharam graa diante de sua estranheza. E gargalharam quando Ekhatherina tentou galgar o assento, mas a lei da gravidade a fez cair sentada no carpete. Um instante de tenso nublou seus olhinhos ao fitar Christopher.
	Voc est bem, querida. No se preocupe. No demorar a aprender a subir a.  Aproximou-se e tomou-lhe a pequenina mo.  Vamos mostrar a Mary Hellen onde fica o quarto dela.
Embora a criana no o compreendesse, curvou os dedinhos ao redor da mo de Christopher. A caminho da porta, ele pegou a mala mais pesada com a mo livre e se ps a caminhar.
	Voc e Ekhatherina dividiro um banheiro, Mary Hellen.
	No ser problema. Eu dividia um com um andar inteiro de famlias. Sou perita em tomar banho em apenas cinco minutos.
	Bem, no haver necessidade disso por aqui.  Christopher entrou nos aposentos dela, pousou a mala no cho e acendeu a luz.  H bastante gua quente, suficiente at mesmo para um longo banho na banheira. Todos os dias, se voc quiser.
S de imaginar-se num banho quente Mary Hellen gemeu de satisfao.
	No faz idia do quo maravilhoso isso soa.
Quando ela abriu os olhos, achou ter visto uma expresso diferente em Christopher. Contudo, bastou um segundo olhar para a impresso desaparecer.
Mary Hellen observou ao redor do quarto decorado em tons de verde-claro e creme.
	Bonito! Lindo, na verdade!
	Espero que fique confortvel.
O tom rude de Christopher a espantou. Virou-se para ele, que j se ocupara em pegar Ekhatherina no colo e ajeitar seu vestido.
O que havia feito ou dito para causar aquela mudana em Christopher? O que gerou a estranheza que pairava no ar.
	Estou certa de que ficarei muito bem.
Christopher foi para a sada
	Ento, instale-se, Mary Hellen. Levarei Ekhatherina para a cozinha e verei se posso preparar algo para comermos. No deve haver muita coisa na geladeira. Fiquei ausente durante um bom tempo... Decerto teremos de nos contentar com biscoitos e sopa.
	Eu no me importo em cozinhar,
	No  Christopher interrompeu-a com firmeza, nem se importando em virar-se para ela.  Desa depois que tiver desfeito a bagagem
Mary Hellen sentia uma grande confuso a envolv-la junto com o frio proporcionado pelo aparelho de ar-condicionado.
Por que aquela tenso repentina?, perguntava-se.
Tolice, pensou. Talvez estivesse imaginando coisas. Christopher devia estar to cansado quanto ela. Afinal, a viagem fora longa.
Colocou a bolsa sobre a colcha. O carpete e as paredes do aposento eram do mesmo tom suave de verde. As cortinas combinavam com a coberta do leito.
Calmaria. Serenidade. Era o que pairava naquele ambiente.
Mary Hellen suspeitava que Christopher fizera com que o cmodo fosse decorado por um profissional tambm, assim como o de Ekhatherina. A elegncia contida na simplicidade era inegvel.
Tirou da pequena mochila a escova de cabelos e o pente, colocando-os na cmoda. Mirou-se no espelho. As longas horas de Kyreznvia para os Estados Unidos deixavam suas marcas em sua expresso. A maquiagem borrara, os fios se encontravam em desalinho.
Em vez de desfazer a bagagem, Mary Hellen achou melhor ir ao banheiro refrescar-se. Nunca fora vaidosa, e por esse motivo no entendia direito a sbita urgncia em melhorar a aparncia. Entretanto, decerto relacionava-se a Christopher, que a aguardava no andar trreo.
Mary Hellen desceu os degraus, usando o olfato para gui-la at a cozinha. Lavara o rosto, escovara os dentes e se penteara. E retocara a pintura. Os poucos minutos que passara no banheiro foram suficientes para que se sentisse renovada.
Entrou na cozinha, e logo deparou com as costas largas de Christopher. Os msculos dos ombros flexionavam e relaxavam enquanto ele lidava no fogo. Os movimentos eram hipnotizantes. A pulsao de Mary Hellen acelerou.
Obrigou-se a respirar com vagar. Baixou as pestanas, na tentativa extrema de conter-se.
Desesperada por encontrar algo mais em que se concentrar, observou ao redor. Tudo ali era impecvel, com seus armrios brancos e utenslios cromados. Um local espaoso, no estilo tpico das casas de fazenda, arejada e espaosa.
Enfim, quando sua pulsao voltou  normalidade, Mary Hellen deu mais alguns passos.
	Omelete  disse ela, sorrindo ao ver Christopher colocar os ovos mexidos na panela.
	Sim. No havia sopa nas prateleiras. Espero que goste de ovos.  tudo o que temos. Precisarei ir ao mercado amanh.
	Estou com tanta fome que seria capaz de comer qualquer coisa.
Mary Hellen estava feliz por Christopher parecer mais relaxado do que momentos atrs, e tambm por ter conseguido dominar as emoes que tomaram-na no instante em que o avistou ali dentro.
A torradeira fez seu barulho caracterstico, e Mary Hellen, no mesmo instante, foi pegar as fatias torradas.
	Encontrei um pacote de po no congelador  ele falou.  H manteiga na geladeira.
Passaram os momentos seguintes preparando uma refeio simples. Ekhatherina comia as uvas-passas que Christopher colocara na bandeja de seu cadeiro.
	Hum!  Mary Hellen sentou-se  mesa ao mesmo tempo que ele.  Est delicioso, Christopher. Leve e saboroso.
	Eu misturo uma colher de ch de gua aos ovos para que fiquem umedecidos.
	E o queijo?  murmurou, saboreando o gosto agradvel.
	Tipo suo. Tive de cortar as partes ressecadas. Parece que voc nunca tinha experimentado...
	Faz anos que no como. Os queijos disponveis na Europa em sua maioria so feitos com leite de ovelha ou de cabra. Mas no so parecidos com este aqui.  maravilhoso!
Christopher riu.
	Ora, como  fcil satisfaz-la!
Percebendo o quo tola devia estar parecendo, Mary Hellen enrubesceu. A, comeou a rir de si mesma. Deu de ombros e admitiu, com honestidade:
	Eu me esqueci das coisas de que tinha saudade.  Levou  boca outra poro da omelete  Est mesmo fantstica.
Depois de devorar a ltima poro com o restante das torradas, Mary Hellen quis saber:
	Por que no deixa que eu limpe tudo? Olharei Ekhatherina, e voc poder tomar um banho.
	Acho que aceitarei sua oferta. Mas antes darei uma olhada nos cavalos, tentarei achar a gata, e s depois vou me banhar.
Mais tarde, depois que Ekhatherina j usava seu pijama, os trs se sentaram no cho do quarto da criana.
Haviam apanhado blocos de madeira que Christopher comprara semanas antes, e ele e Mary Hellen montavam torres para que Ekhatherina se deliciasse em derrub-las. Em breve, entretanto, a menina passou a fazer as prprias construes.
	Christopher, agora que voc tem Ekhatherina em casa, que tal fazer uma festa para apresent-la a sua famlia e seus amigos? Eu ficaria feliz em colaborar.
	No  preciso isso. Mary Hellen. No tenho parentes. Bem, refiro-me  famlia prxima. Era filho nico, e meus pais morreram em um acidente de carro, oito anos atrs.
	Oh, Christopher! Sinto muito...
Ele esboou um sorriso doce.
	E as amizades que tenho fiz por intermdio dos negcios. Esto espalhados pele pas. e no somos prximos o bastante para uma celebrao to pessoal. Alm disso, me comunico com a maioria atravs de correspondncia eletrnica.
Como devia ser solitrio!, pensou Mary Hellen. No tinha familiares, amigos prximos, nem mesmo uma namorada... uma pessoa com a qual pudesse contar durante essa nova fase de sua existncia. Algum a quem confidenciar as dvidas, os temores, triunfos e as alegrias.
	Sendo assim, no precisa notificar ningum a respeito da chegada de Ekhatherina? No h algum com quem queira celebrar?
	No sinta pena de mim, Mary Hellen. Minha vida  to plena quanto quero que seja. Tenho meu trabalho, meus cavalos, minha gata.  Ele sorriu.  E agora, uma filha. Meu mundo expandiu-se muito bem, se quer saber minha opinio.
"Mas voc precisa de algum, Christopher. Deveria ter uma companheira, uma pessoa adulta. Uma mulher... Uma esposa!"
Constatando a prpria posio, o pensamento logo precisou de uma correo. "Uma de verdade, quero dizer. Algum que esteja por perto para ajud-lo a criar Ekhatherina."
Mas Mary Hellen era a esposa dele. Por enquanto, pelo menos. Uma esposa temporria. Seu jeito nmade no permitiria nada alm disso.
Porm, assim que o matrimnio fosse anulado, Christopher devia tentar encontrar uma garota que pudesse ajud-lo, de preferncia para sempre, a montar um lar feliz para Ekhatherina.
Seria o melhor. Para Ekhatherina e para Christopher.
Mary Hellen queria dizer-lhe tudo isso. Gostaria de discutir seu ponto de vista quanto ao isolamento em que ele vivia. Christopher poderia achar que seu mundo era amplo o bastante; pleno. Mas Mary Hellen no via assim.
No entanto, no poderia revelar o que lhe ia em mente. Afinal, no o conhecia bem o bastante. No sabia como Christopher reagiria diante de um conselho no solicitado.
Teria de esperar um pouco at conhec-lo melhor.
Horas mais tarde, Mary Hellen estava deitada na cama, fitando o teto, com o quarto s escuras.
A exausto fizera com que bocejasse no dormitrio de Ekhatherina, e Christopher sugerira que fosse dormir.
Ele achava que Ekhatherina ficaria acordada at tarde por causa da longa soneca que tirara durante o vo.
Quando Mary Hellen ponderou que ele devia estar to cansado quanto ela, e ento se oferecera para ficar com o beb, Christopher, com gentileza, rejeitara a idia.
Era o pai da menina, agora, lembrou-a com orgulho. Precisava habituar-se a longas viglias, conforme todos os outros pais eram forados a suportar.
Na verdade, parecia at ansioso pela experincia, Mary Hellen notou. Por isso, aceitara a sugesto. Entretanto, uma vez ali, no conseguia conciliar o sono, embora estivesse cansadssima.
Tentou ler e ouvir msica no rdio, mas nada adiantou.
Aps o que pareceu serem horas, virando-se de um lado para o outro, acabou se levantando e foi para a porta. O que precisava, decidiu ao girar a maaneta, era de um copo de gua gelada. Iria para a cozinha.
O luar invadiu o corredor atravs da clarabia, lanando sombras fantasmagricas. Mary Hellen avistou uma forma  soleira dos aposentos de Ekhatherina e percebeu que era Christopher.
	Ela adormeceu?  Mary Hellen sussurrou, a escurido fazendo-a mover-se para mais perto do que seria seguro para poder ver-lhe o rosto.
	Parece um anjinho naquele bero...
	Ela  um anjo, Christopher.
	Meu anjo.  Ele falou como que para si, e pousou o olhar intenso em Mary Hellen.
Em silncio, ps-se a fit-la na penumbra durante segundos. Estendeu o brao e tocou-lhe o queixo.
	E ela est comigo por sua causa.
Os dedos eram quentes contra a pele dela. O corao de Mary Hellen disparou, mais uma vez. Analisou Christopher. Quis afastar-se dele, mas no pde. Estava perdida.
 Eu estava l, ninando Ekhatherina...  Christopher falava com suavidade, os dedos escorregando pela face de Mary Hellen  ...e tudo o que ocorreu foi repassado em minha memria. Devo-lhe tanto! Nunca serei capaz de pagar. Gostaria de poder demonstrar toda minha gratido.
A quietude que se seguiu era to extrema e penetrante como Mary Hellen jamais sonhara ser possvel. Algo estava prestes a acontecer, no tinha dvida.
Algo maravilhoso.
Ou terrvel. No sabia ao certo.
O momento pareceu congelado no tempo. Ela sabia apenas que estava presa em uma armadilha, incapaz de falar ou mover-se, enquanto esperava por alguma coisa que no compreendia direito.
Christopher se moveu. No para longe dela, mas na direo de Mary Hellen. E tudo o que ela pde fazer foi baixar as plpebras e prender a respirao.

CAPTULO VI

Calor. Era a nica sensao que Mary Hellen conseguiu identificar quando a boca de Christopher pousou na sua de modo to possessivo.
Ento, pouco a pouco, outras percepes invadiram seu crebro. O sabor daqueles lbios, da lngua traando o contorno dos dela...
Como se possussem vontade prpria, os braos de Mary Hellen enlaaram o pescoo de Christopher. Seus dedos mergulharam nos cabelos escuros da nuca, puxando a cabea para bem perto.
O beijo tornou-se mais ardente, exigente, e Mary Hellen permitiu a ele aprofundar-se ainda mais.
O desejo que a invadia era to puro que parecia vir de sua prpria alma. Agarrou-se a Christopher, os joelhos bambos. E a breve distncia que percorreu apoiando-se no corpo forte mudou tudo, intensificando as sensaes que ela experimentava, barrando todo seu raciocnio.
Podia apenas sentir as coxas fortes contra as suas, a massa slida do trax pressionando seus seios, as mos em seu rosto e depois nas costas, o calor de Christopher penetrando pelo tecido de sua roupa.
Mary Hellen gemeu, envolvida em tanta volpia.
Christopher falou. Algo sussurrado, meio sem flego, que excitou-a, embora no o tivesse escutado com clareza.
O que disse? Teria murmurado seu nome?
Piscou algumas vezes, e percebeu que ele afastara-se um pouco. Encarava-a, a expresso impenetrvel.
Mary Hellen engoliu em seco e sentiu um arrepio. Experimentou um medo to intenso que mal foi capaz de suprimir um grito. Afastou-se, confusa e amedrontada.
	Desculpe-me...  disse Christopher.
Mary Hellen fitava-o, quase em pnico. Sentia-se como um animal selvagem encurralado por um caador experiente. Devia escapar.
	Mary Hellen...
Por algum motivo desconhecido, o pesar que decifrou na voz de Christopher pareceu apenas aumentar o horror que sentia. Nem lhe deu oportunidade de dizer outra palavra. Girou nos calcanhares, correu para o quarto e fechou a porta.
O plo do cavalo parecia veludo. Mary Hellen afagou de leve o focinho preto do animal, sussurrando-lhe um cumprimento.
Fora ao estbulo com a inteno de dar uma olhada nos cavalos antes de entrar para preparar o desjejum. Entretanto, quando viu-se em p ali, sua imaginao criou asas.
J estava ali fazia tanto tempo que um dos animais aproximara-se, pressionando o focinho contra o porto, querendo mais carinho.
	Mas que lindo menino!
O cavalo era negro. Seu plo magnfico brilhava ao sol matinal que entrava pelas amplas portas da cocheira. A musculatura era bem desenvolvida, e a cauda, to longa que podia chegar ao cho.
Quando a enorme montaria aproximou-se pela primeira vez, Mary Hellen ficou hesitante. Mas fora um cumprimento. E o cavalo demonstrou satisfao quando ela comeou a acarinh-lo. Agora, bem confortvel em sua companhia, estava tranquilo, e Mary Hellen, sossegada para deixar a mente vagando.
Como Christopher e ela acabaram se beijando, na vspera? Era a ltima coisa que pudera esperar.
No, isso era mentira. Bem no instante final, soube que algo estava prestes a ocorrer. Mas um beijo? Fora uma surpresa.
Mas como ocorreu? Por que ficara to apavorada? Por que tanto temor?
J fora beijada antes. Tinha vinte e seis anos, afinal de contas. Namorara alguns rapazes... No muitos, era verdade, mas o suficiente para no assustar-se mais. J tivera sua boa parcela de beijos de boa-noite.
Ento por que tanta ansiedade?
O assunto causava-lhe dor de cabea. Ora, o medo que a engolfara, na ocasio, no importava, concluiu em silncio, afugentando as conjecturas inquietantes.
Precisava manter seu relacionamento com Christopher em um nvel platnico. A Europa era seu futuro. Tinha crianas a instruir. Portanto, no podia envolver-se.
Teria de dizer isso a Christopher, decidiu. Era necessrio passar por cima das regras que criaram quando ela concordou em viajar para os Estados Unidos para tornar-se bab de Ekhatherina. Teria de deixar muito claras suas intenes.
 Bom dia!
Mary Hellen ficou petrificada por um segundo. Em seguida, num esforo, conseguiu virar-se, para ver Christopher em p ao batente, a luz matinal muito forte emoldurando-o. Majestoso, adiantou-se, e o cavalo balanou a cabea em bvio reconhecimento.
Mary Hellen afastou-se da baia.
	Ol  respondeu, sentindo um pouco de falta de ar. Christopher estendeu-lhe uma das xcaras de caf fumegante que trazia e observou-a inalando o aroma tentador.
Mary Hellen estava linda, com a luminosidade intensa acentuando o tom avermelhado dos cabelos. Christopher sentiu um calafrio. Sabia o que o atormentava: desejo. Sentira-o na noite anterior, quando Mary Hellen gemera de modo to delicioso em resposta a sua sugesto de tomar um longo banho de imerso.
Aquele gemido evocara uma luxria que ameaara consumi-lo. Christopher procurara lutar contra aquela necessidade. Porm, ao fazer isso, acabou sendo rude com Mary Hellen. Tinha certeza de que ela percebera.
Aquele beijo nunca devia ter acontecido, afirmou, pela milionsima vez. Nada de bom decorreria disso, a nenhum dos dois.
Por esse motivo estava ali. Viera pedir desculpa e prometer que seu comportamento tempestuoso no se repetiria. E, a contar pelo modo como Mary Hellen correra para o quarto, na vspera, estava certo de que ficaria feliz e aliviada em ouvir o que tinha a lhe dizer.
	Obrigada.
Christopher observou-a tomando um gole.
	Vejo que voc encontrou Pepper.
	Ento esse  seu nome.
	Sim. J se chamava assim quando o comprei.  um morgan.
Mary Hellen franziu a testa.
	Morgan  uma raa originria de Massachusetts  explicou, Christopher, passando a palma pelo pescoo de Pepper.  Seus exemplares so reconhecidos com facilidade por causa da cabea curta e larga e o pescoo fino. Acho que, embora ele seja bastante independente,
 dcil o suficiente para passeios.
	Quer dizer que Pepper tem boas maneiras, no ?
Christopher sorriu.
	Com um nome como Pepper, que significa pimenta, voc pode pensar que no. Mas  meigo e obediente.
	E bonito.
"No to tanto quanto voc, Mary Hellen." Christopher se aborreceu por no conseguir conter essas observaes fora de hora.
Entretanto, afirmara dezenas de vezes, ao se virar de um lado para o outro na cama, que era natural que se sentisse fisicamente atrado por Mary Hellen.
Ela era uma belssima ruiva. Um homem teria de ser frio como uma pedra para no julg-la maravilhosa. Contudo, Christopher recusava-se a arruinar o arranjo que fizeram.
Mary Hellen deixara claro que no ficaria por ali, o que se adequava  perfeio aos propsitos de Christopher.
Mesmo que Mary Hellen no tivesse afirmado que pretendia ir para a Europa, ainda assim Christopher no gostaria de aproximar-se muito dela. Aquela jovem era muito simptica e boa de corao para ter a vida posta de cabea para baixo pela bagagem emocional dele.
	E quanto a este camarada aqui?  A pergunta de Mary Hellen chamou-lhe a ateno.
Viu-a na baia oposta do estbulo. Procurava fazer com que Blaze se aproximasse, mas o cavalo permanecia perto da parede mais distante da entrada.
	Blaze  um tanto tmido. Mas se comportar melhor depois que se habituar a sua presena.
	E de que raa ele ?
	 um quarto de milha. O nome vem de um teste de qualidade estabelecido pelos criadores originais da Virgnia e relaciona-se  habilidade dos animais em correr por um quarto de milha.
Durante alguns segundos, Mary Hellen pareceu no saber o que dizer. Por fim, comentou:
	Voc conhece bastante acerca de seus bichinhos.
	Nem tanto assim. Sei apenas que so criaturas graciosas e belas. E isso me basta.
Sobreveio um silncio desconfortvel. Os dois beberam caf, mas era evidente que sentiam-se perturbados.
	Ekhatherina est dormindo, Christopher?
	Sim.
Mary Hellen forou-se a sorrir.
	Mary Hellen, oua... Quanto a ontem...
Ela desviou o olhar, parecendo inquieta.
	No sei o que deu em mim  prosseguiu Christopher.  Foi tudo culpa minha, e peo que me perdoe. Quero que voc saiba que... que no vai se repetir. Preciso de sua ajuda. Ekhatherina tambm. Foi loucura eu ter feito o que fiz. No quero estragar nosso acordo. Por isso, espero que aceite meu pedido de desculpas e a promessa de que aquilo no tornar a acontecer.
No houve resposta imediata.
	Tudo o que posso falar em minha defesa  que era tarde, e passamos o dia todo viajando... E ento eu estava acordado com Ekhatherina... E muito cansado...
Mary Hellen fitou-o.
	Ambos estvamos exaustos, Christopher.
Ele estranhou a melancolia que captou na voz de Mary Hellen.
	Voc no tem nada de que se desculpar, Mary Hellen. Sou o nico culpado. Assumo plena responsabilidade. E sinto muito. Do fundo do corao.
	Mas... conforme disse, Christopher, no vai acontecer de novo.
Christopher assentiu, aliviado por notar que Mary Hellen tambm estava ansiosa por deixar o assunto no passado.
 Tem minha palavra de honra.
Ela esboou um largo sorriso, ento, e foi como se o astro-rei tivesse acabado de nascer no horizonte.
O rudo de Ekhatherina chorando veio da casa prxima.
	Parece que minha garotinha acordou.  melhor eu tir-la da cama.
	Vou preparar torradas, Christopher. Contudo, devo admitir que preferiria cuidar de Ekhatherina. Eu sou a bab, voc sabe... E devo fazer algo para justificar minha permanncia.
Christopher ficou contente quando constatou que seu pedido de desculpas abrandara o clima pesado. Parecia que o relacionamento estava de volta ao eixo correto.
	J tem feito demais, Mary Hellen. Pressinto que Ekhatherina v desejar conhecer muitas coisas em seu novo lar. Estou feliz por voc estar aqui para me auxiliar a ensinar-lhe tudo.
Foram juntos para a residncia, lado a lado, bem mais relaxados e leves.
Os dias daquela primeira semana passaram em uma rotina de paz. Christopher trabalhava at altas horas para aproveitar a maior parte do tempo com a filha.
Ligava o computador antes do nascer do sol e trabalhava algumas horas at Ekhatherina acordar. Quando a criana tirava uma soneca, mais adiante, ele ia de novo para o escritrio. Ou, caso o servio exigisse sua ateno imediata, colocava a menina no cho do escritrio para brincar com blocos coloridos ou outros brinquedos.
Durante o perodo em que Christopher necessitava se dedicar por completo aos afazeres, Mary Hellen oferecia-se para levar Ekhatherina a um passeio, para que no fosse perturbado. Mas Christopher no aceitava.
Seu argumento fora que a filha tinha de habituar-se  idia de que o novo papai trabalhava em casa. Se deixasse Mary Hellen cuidar de Ekhatherina naquele momento, o que faria quando ela tivesse de partir?
No, dissera, era melhor para a menina ajustar-se ao padro de brincar a seu lado quando ele precisava ficar ao computador. E Mary Hellen teve de concordar.
Claro, dissera-lhe Christopher, ela era mais do que bem-vinda a juntar-se s brincadeiras de Ekhatherina, e Mary Hellen com frequncia fazia isso.
Ela havia conhecido Bob, o ajudante de Christopher na manuteno da propriedade. Era um homem de idade, muito gentil, que chegava todas as manhs para alimentar e escovar os cavalos, cortar a grama ou ajeitar as floreiras. Sempre ia embora antes do meio-dia.
Mary Hellen descobriu ao longo da semana que seu horrio mais solitrio era durante a hora e meia em que Ekhatherina dormia.
Christopher sempre estava ocupado com seus afazeres, e Mary Hellen, portanto, era deixada sozinha. Ento, lavava algumas roupas ou fazia longas caminhadas, lia livros e assistia  televiso.
A atmosfera amigvel que desenvolveram era excelente, como devia ser. Riam, faziam as refeies e se dedicavam a Ekhatherina, nenhum dos dois tendo de preocupar-se com aquela complicao desconcertante chamada "atrao".
No que Mary Hellen julgasse Christopher menos atraente agora do que antes do beijo. Se afirmasse isso, estaria mentindo.
Christopher era muito bem-apessoado e inteligente... e amava com loucura a pequenina Ekhatherina. Esse era, a propsito, seu trao mais sedutor.
Quando Christopher ria por causa de alguma atitude da menina, Mary Hellen julgava-se diante do sorriso mais charmoso e irresistvel do planeta.
Sim, precisava admitir que Christopher era o homem mais belo e msculo que conhecia. E ela sentia-se livre para assumir isso para si, por causa da promessa de Christopher.
Quando ele explicou que o beijo se devera ao fato de estar exausto, Mary Hellen lembrou-se de ter admitido que ambos estavam muito cansados.
Sim, tivera uma necessidade desesperada de explicar a prpria participao ansiosa no evento passional. Entretanto, o importante era que Christopher lhe garantira que aquilo no se repetiria.
Christopher no a beijou porque sentiu-se atrado por ela. Por algum motivo, ao saber disso, Mary Hellen viu-se livre para admir-lo a distncia, sem sofrer com a ansiedade e confuso.
Deliciava-se em observ-lo com Ekhatherina. Ou quando estava to concentrado defronte ao computador nas horas em que ela e a menina se divertiam em silncio no carpete.
Outra qualidade sua era cavalgar com maestria. Christopher era um cavaleiro magnfico, as coxas musculosas flexionando-se ao instigar Blaze a seguir adiante.
Mary Hellen sabia que o ajudava bastante. Aos catorze meses de vida, Ekhatherina no falava muitas palavras. Entretanto, adorava usar as poucas que conhecia, mostrando-se muito curiosa, inteligente e comunicativa.
Por essa razo, Mary Hellen estava feliz em ser capaz de interpretar o que a menina dizia. Em breve, esperava, Ekhatherina comearia a falar um pouco de ingls.
	Ei...
A voz de Christopher a fez desviar os olhos da revista que esteve folheando.
	Ekhatherina acordou, Mary Hellen. O que acha de irmos a um shopping center? Estamos enfurnados nesta casa por tempo demais!
Mary Hellen achou graa e deixou a revista de lado.
	Eu adoraria!  Levantou-se, ajeitando as pregas da saia longa.  No vou a um grande e glorioso shopping center desde que deixei os Estados Unidos!
Ekhatherina saboreava uma mamadeira com suco de ma gelado.
Quando Christopher estacionou e desligou o motor, Mary Hellen ficou olhando para o belo prdio, e sentiu um arrepio de excitao.
Como a maioria das mulheres, adorava fazer compras. E no existia nada parecido com aquela construo nos pequenos pases do leste europeu nos quais permaneceu nos ltimos cinco anos. E, mesmo que houvesse, sua remunerao mdica no lhe permitiria extravagncias.
O dinheiro era gasto com itens de primeira necessidade, como comida, aluguel e roupas. E as nicas peas que adquirira eram baratas, para substituir as que tornaram-se muito gastas.
Christopher ajeitou Ekhatherina em um carrinho de beb. A criana olhava ao redor, parecendo maravilhada.
	Cada experincia parece encant-la  Christopher observou.
Mary Hellen assentiu.
	Uma boa parte desse comportamento relaciona-se  idade dela. Bebs costumam ser curiosos. Mas uma boa parcela, tenho certeza, advm do fato de, decerto, ter nascido em uma famlia pobre. Caso contrrio, teria encontrado um lar com parentes quando os pais morreram. Ekhatherina nunca deve ter andado em um carro ou outro veculo motorizado. Tudo  novo para ela.
	 quase como se minha filha estivesse em um grande parque de diverses.
	Algo assim.
Adentraram o edifcio refrescado pelos aparelhos de ar-condicionado, e Mary Hellen no pde conter a alegria.
	Voc nem pode imaginar como isto tudo  fabuloso.  Seu olhar passeava pelas vitrines coloridas.
Havia uma loja de artigos eletrnicos vendendo computadores, telefones e minsculos rdios portteis. Outra, roupas femininas. E aquela mais adiante, livros de todo tipo.
Havia tambm CDs e fitas cassete de todas as msicas imaginveis. E tratava-se apenas do que estava no campo de viso de quem acabava de entrar.
Mary Hellen mordeu o lbio ao contemplar algumas roupas coloridas.
O riso de Christopher chamou sua ateno.
	Voc parece uma criana pressionando o nariz no vidro de uma doceria.
Mary Hellen gargalhou.
	Isso  o que eu chamo de uma comparao perfeita. No faz idia de como fazer compras por onde estive  diferente, Christopher.
	Tem razo. No posso imaginar. Sendo assim, conte-me.
	Bem, a economia da maior parte dos pases do bloco leste, onde eu estive dando aulas, est empobrecida. Faltam muitas mercadorias. At pouco tempo atrs, as mulheres costuravam ou tricotavam as vestimentas. Algumas ainda fazem isso. E, com uma renda familiar que varia em torno de duzentos a trezentos dlares por ms, no h muito dinheiro para itens de luxo, como camisolas de cetim ou blusas de seda. Isso tudo nem mesmo  encontrado por l. Apenas tecidos fortes, durveis.  isso o que as pessoas so foradas a adquirir, o que elimina a diverso de fazer compras.
	Compreendo...
	E alguns itens muito necessrios tambm podem ser dificlimos de serem encontrados, Christopher. Quando me mudei para Kyreznvia, levei duas semanas inteiras para encontrar uma pequena geladeira. E era de segunda mo.
	Nossa! Que coisa estranha para a realidade por aqui. Acho que sinto-me um tanto culpado por possuir tanto.
	No se sinta. Voc trabalha duro para ganhar o que ganha. Apenas demonstre gratido por tudo o que pode ter.
	Tentarei manter isso em mente.
Christopher, um tanto ausente, empurrava o carrinho de beb para frente e para trs, para manter Ekhatherina tranquila.
Uma blusa de seda belssima chamou a ateno de Mary Hellen, que suspirou.
	Que linda!
	Vamos entrar  sugeriu Christopher.  Voc poder experiment-la.
	Oh, no! No posso arcar com essa despesa.
	E da? Desde quando isso impede uma mulher de experimentar coisas bonitas?
Mary Hellen teve de rir. Por fim, deu de ombros e sentiu um arrepio de antecipao diante da perspectiva de ter o tecido macio entre os dedos.
	Est bem. Voc est certo.
O tecido parecia mgico. Mary Hellen passou os braos pelas as mangas curtas e fechou os botes. Mirou-se no espelho. A cor era to bela... Roupas como aquela no estavam disponveis em Kyreznvia.
Vestiu o short que complementava o traje, subiu o zper e ajeitou o cinto de couro. Ento, saiu do provador.
	Cus!  Christopher exclamou.  Est encantadora! Mary Hellen enrubesceu.
	Obrigada...
A vendedora ofereceu-lhe outra roupa coordenada para experimentar.
	No, muito agradecida. Estamos apenas nos divertindo.
Christopher arqueou as sobrancelhas.
	H algum motivo para no nos divertirmos um pouco mais?  indagou, maroto.
Aquele homem era impossvel, Mary Hellen decidiu.
	Est bem  acabou capitulando.
Mary Hellen entrou quatro vezes no provador. Colocou dois shorts, um vestido azul-turquesa e uma saia preta com blusa azul combinando.
Christopher opinou sobre cada detalhe, e Mary Hellen mal conseguia conter a satisfao. A apreciao dele fazia-a sentir-se feminina. Bonita.
Logo aps, deixou o provador usando os prprios trajes.
	Chega, Christopher! Ele limitou-se a rir.
	Embrulhe tudo  disse, categrico,  vendedora.

	No, Christopher!  Mary Hellen meneou a cabea.  Eu as vesti apenas por brincadeira. Foi o quem voc disse!
	E ser ainda mais divertido se ganh-las, no concorda?
	Mas...
	Deixe-me fazer isso por voc, Mary Hellen. Eu quero.  E estendeu o carto de crdito  moa do caixa para pagar pelas compras.
Antes de deixarem o shopping, Christopher comprara alguns programas de computador; uma despesa de negcios, conforme chamara.
Ekhatherina ganhara uma roupa nova e um cachorrinho dlmata de pelcia, que a menina recusou-se a deixar que embrulhassem. Queria carregar o lindo presente debaixo do brao.
Alm dos trajes, Mary Hellen tambm ganhou um par de sandlias.
	Mas so to frgeis!  falara para Christopher quando ele insistira que ficasse com ela.  No duraro muito.
Christopher dera de ombros.
	Porm, esto na moda.
E os dois desataram a rir.
Entraram no automvel de Christopher e afivelaram os cintos de segurana.
	O que acha de jantarmos, Mary Hellen? Ekhatherina deve estar faminta.
	timo!
	Ento, o que ser? Comida indiana? Italiana? Francesa? Esta cidade oferece tudo o que pudermos desejar.
Christopher conduziu o carro pelo trfego, e Mary Hellen ficou a observ-lo.
Devia perguntar? Ser que Christopher ficaria aborrecido se lhe dissesse o que gostaria mesmo de comer?
	Bem, se voc quer mesmo saber... Christopher olhou-a de soslaio.
	Quero, sim.
Mesmo assim, Mary Hellen hesitou. Afinal, criou coragem.
	Eu gostaria de um hambrguer.
	Hambrguer?!
	Pois ... Mas no qualquer um. Quero que seja de um fast-food.
	Voc est brincando, no ?
	No, Christopher. No h nada como uma boa e velha comida engordurada de fast-food... Nem me lembro quanto tempo faz que no como.
Mary Hellen fez uma expresso sofredora, e Christopher gargalhou.
	Est bem... Se  isso o que voc deseja,  o que ter.
Depois que a ltima batata frita foi devorada e foram consumidos os ltimos goles de milk-shake, Christopher falou:
	Bem, acho que agora todos poderemos ir para casa bastante satisfeitos.
	Sou uma mulher com roupas novas, sapato novo, e devidamente abastecida de tudo o que h de melhor e mais cheio de calorias em um fast-food. Mas no acho que esteja na Filadlfia.
Christopher amassou os guardanapos de papel e colocou-os na bandeja.
	E onde acha que est?  indagou, bem-humorado.
	No paraso.
Ele meneou a cabea, um tanto triste.
	Como  fcil satisfaz-la...
Mary Hellen sentia-se bem. Feliz at. Ela, Christopher e Ekhatherina passaram uma tarde maravilhosa, fazendo compras, comendo e rindo.
No trajeto para a residncia, no pde conter a sensao de que chegava o momento apropriado para conversar com Christopher acerca de suas observaes e dizer-lhe o que lhe ia no ntimo.
Christopher precisava de uma esposa, uma boa mulher que pudesse ajud-lo a construir um lar para Ekhatherina. Algum com quem dividisse a vida cotidiana.
Quando a idia lhe ocorreu pela primeira vez, no achou que conhecia-o o suficiente para lhe dar conselhos. Mas uma semana inteira se passara, durante a qual partilharam todas as horas livres. E, aps aqueles momentos adorveis, talvez Christopher estivesse aberto ao comentrio amigvel.
Mary Hellen virou a cabea e viu Ekhatherina mastigando a orelha de seu novo bichinho de pelcia. Em seguida, olhou para o belo perfil de Christopher e prendeu a respirao por uma frao de segundo, enquanto decidia como abordar o assunto.
No liavia um jeito adequado. Assim, era melhor ir direto ao assunto:
 Saae do que voc precisa?  Sem dar a Christopher m momento sequer para ponderar sobre a resposta, ela bem taxativa:  De uma esposa.

CAPTULO VII

 O qu?  Christopher arregalou os olhos. Mary Hellen tinha de admitir que ele parecia mesmo perplexo. Era bvio que ouvira o que ela disse, mas parecia no saber de onde aquela sugesto fora tirada.
	Bem, eu...  Sentiu-se insegura quanto  pertinncia de dar o conselho. Mas acabou repetindo:  Uma esposa. Mas de verdade. Uma mulher que...
A confuso na expresso de Christopher pareceu dissolver-se no mesmo instante.
	Pois eu j tenho uma esposa, muito obrigado.  O tom de voz era muito agradvel.
Brincalho at, e Mary Hellen notou que quase sorria. Um pensamento lhe ocorreu. Talvez Christopher achasse que estava brincando.
	Falo srio, Christopher.
Ele a fitou, de novo parecendo confuso. Ento, voltou a ateno para a pista.
	Tem uma vida muito solitria, Christopher. Seria bom para voc e para Ekhatherina se tivesse algum com quem contar e partilhar o dia-a-dia. Quer dizer... estou aqui agora. Rimos juntos das trapalhadas de Ekhatherina...
Mary Hellen observou o horizonte, rememorando a semana que passou.
	Houve alguns momentos em que ela nos deixou apavorados porque no conseguamos encontr-la. E durante o tempo todo Ekhatherina esteve sentada dentro do armrio, divertindo-se com seus sapatos.
Christopher gargalhou.
	Ekhatherina havia alinhado todos os pares. Estava fazendo um trem.
	E quando Ekhatherina viu Chunky pele primeira vez, gritou, muito alegre, e foi engatinhandc atrs da gata com a rapidez que suas perninhas permitiam.
	E Chunky saiu correndo tambm. A pobrezinha no saiu de debaixo da poltrona durante horas.
Mary Hellen permitiu que o silncio casse entre os dois, durante alguns minutos.
	Voc ter milhares de acontecimentos desse tipo no decorrer do desenvolvimento de Ekhatherina. Deve ter algum com quem dividi-los. Tem sido muito agradvel para mim ser essa pessoa, contudo, est chegando a hora de eu partir. Precisar de algum, Christopher.
	Dividirei os momentos com Ekhatherina.
"No  a mesma coisa", queria lhe dizer. Mary Hellen ficou imaginando se Christopher relutava em seguir seu raciocnio de propsito.
	Voc passar por algumas dificuldades, Christopher. Quando Ekhatherina entrar em contato com outras crianas, decerto se machucar um pouco. E poder pegar resfriados e infeces de ouvido assim que o clima esfriar. Necessitar do apoio de uma esposa de verdade. Essa
seria a soluo perfeita.
O riso leve que ele emitiu era forado.
	Acredite em mim, Mary Hellen, minha filha  a nica mulher de que preciso junto de mim.
"Muito bem, seja fui to longe assim, no retrocederei."
	Voc me falou que  um solteiro convicto, mas, para ser honesta, no achava que quisesse permanecer assim para sempre. Hoje em dia, tenho a impresso de que no pretende se envolver nunca.
Christopher adentrou a rua principal da vizinhana.
	Eu lhe disse isso quando nos conhecemos.
Mary Hellen deu de ombros.
	Sei disso. Mas imaginei que fosse porque voc ainda no tivesse encontrado a mulher certa. Ou algo do gnero. No entanto, no decorrer das ltimas semanas, ouvi certos comentrios seus... os quais levaram-me a acreditar que pretende permanecer solteiro.
Mary Hellen sentia-se afundando em areia movedia, mas no conseguia deter-se.
	Foi magoado no passado, Christopher? Ou melhor, voc no tem de me contar se no quiser. Mas  terrvel que no seja capaz de confiar em ningum. Nem todas as mulheres...
	Espere a!  Ele virou o volante e direcionou o automvel para o estacionamento de sua casa.
Mas Mary Hellen no se deixaria interromper:
	...so diablicas. Encontre algum, Christopher.  preciso ter consigo uma moa que deseje ficar...
	Est se oferecendo para a posio?
A pergunta inesperada causou-lhe imensa surpresa.
	Claro que no! No estou falando de mim, Christopher. Como pde pensar isso? No posso ficar aqui, voc sabe muito bem. Refiro-me a Ekhatherina e ao novo papai dela. Vocs dois tero de...
	Pare!
A nica palavra foi dita em tom baixo, mas com firmeza.
	Voc interpretou tudo errado, Mary Hellen. Ningum me magoou. Ningum feriu meus sentimentos ou arruinou meu ego. Tampouco arranhou meu orgulho.
Christopher estacionou, desligou o motor e desceu do veculo. Abriu a porta traseira e desafivelou o cinto de segurana de Ekhatherina.
Para Mary Hellen, estava claro que tentava controlar a raiva. Como uma situao to simples sara do controle?
Com Ekhatherina apoiada no quadril e um dos braos da menina enlaando-lhe o pescoo, Christopher fitou Mary Hellen, que permanecia, atnita e imvel, no assento do passageiro.
	A despeito daquilo em que voc possa acreditar, no houve uma mulher malvada que destruiu minha capacidade de confiar nos seres humanos, Mary Hellen.
Christopher ajeitou a filha em uma posio mais segura em seus braos. Durante o tempo todo, a menina segurava com a mozinha livre o cachorro de pelcia.
	H muita gente que me desperta confiana. Creia em mim, Mary Hellen. Se no fosse assim, eu no teria confiado em voc, que ajudou-me a conseguir o maior
tesouro do mundo.
Ento, voltou-se para Ekhatherina.
	Vamos, querida.  hora de voc tomar um bom banho e aprontar-se para dormir.
Christopher fechou a porta do carro e foi na direo da residncia, deixando Mary Hellen sentada sozinha no mais absoluto silncio.
Observou-o desaparecendo casa adentro. Sentia-se ferida e colocada em seu devido lugar. E quisera apenas oferecer um conselho amigvel... Por que suas boas intenes transformaram-se em algo ruim?
"Deixe para l", sua voz interna aconselhou-a. "No  de sua conta."
Era timo que Christopher no tivesse problemas em crer nas pessoas. Mary Hellen quase assentiu ao lembrar-se da firmeza dele ao fazer a afirmao. Falava a verdade, decidiu. E dera-lhe uma ampla prova disso. Se no confiasse nela, no teria permitido que ficasse perto de Ekhatherina.
Mas por que...
"J disse para deixar para l", a conscincia repetiu o comando, dessa vez com mais autoridade.
Mas Mary Hellen via-se cada vez mais curiosa.
Christopher confirmara sua averso a casamento e relacionamentos. Contudo, se a antipatia no fora causada por uma ex-namorada... o que houvera para que desenvolvesse aquele seu jeito peculiar de pensar? Por que era to categrico ao excluir de vez a possibilidade do matrimnio e do amor?
Mary Hellen permaneceu onde estava por bastante tempo, deixando que as questes repletas de curiosidade tivessem livre curso em seu interior.
O perfume feminino e floral que sempre emanava de Mary Hellen invadiu o escritrio de Christopher. Permeava o ar, abraando-o, enchendo seus pulmes a cada aspirar.
Os dois trocaram poucas formalidades desde a noite em que Mary Hellen fizera aquele estranho comentrio.
Uma esposa... Achava que ele precisava de uma esposa.
Christopher constatou, ento, que Mary Hellen apenas resolvera fazer a sugesto porque importava-se com seu bem-estar e com o de Ekhatherina. Mary Hellen queria que a pequena famlia ficasse bem quando a deixasse em busca do novo local para dar aulas. E a, aps repassar a conversa e ponderar bem a respeito, Christopher compreendeu que a motivao dela no fora nada egosta.
Mas sua reao irada erigira uma parede entre os dois, que ambos achavam impossvel destruir.
Christopher devia pedir desculpas por ter sido to grosseiro. Contudo, no conseguia tomar to nobre atitude, porque isso o foraria a explicar seu comportamento. E era algo que no se imaginava fazendo, de jeito nenhum.
No gostaria de ter de contar a Mary Hellen a verdade acerca de suas razes para nunca pretender se casar.
Fitou o lugar onde ela e Ekhatherina estavam, sentadas sobre o carpete. Mary Hellen era uma linda mulher, com os cabelos ruivos caindo pelas costas e os olhos verdes adorveis.
Estar no mesmo ambiente que ela era uma tortura. Ora, no era bem isso, emendou. Alis, apenas pensar nela j o torturava. O corpo de curvas generosas, o aroma to delicioso...
"Pare!", ordenou-se. Aquela idia era insana. Se continuasse naquele caminho, no teria condies de conter a vontade de beij-la de novo. Prendeu o flego, suprimindo um protesto. A volpia no podia tomar as rdeas da situao!
	Olhe, Ekhatherina  Mary Hellen falou com suavidade.  Papai est nos observando desenhar.
Na verdade, era Mary Hellen quem fazia o esboo, elaborando formas coloridas e grandes, dando-lhes nomes em ingls, e assim tentando ensinar Ekhatherina.
O fato de t-lo flagrado deixou Christopher envergonhado.
	Isto  um crculo, querida  ela disse  menina.  Um grande crculo verde.
Ento, Mary Hellen se virou para Christopher.
	A palavra "crculo"  difcil de ser pronunciada. Porm, Ekhatherina estar falando ingls em breve.
Ento era aquilo, Christopher constatou. A alegre mas forada simpatia era como concreto e blocos. Um obstculo que Mary Hellen construra para se proteger.
O olhar migrou dele para o papel, confirmando a Christopher a existncia dessa barreira.
"Droga!" Detestava o clima tenso. Olhou sem ver para a tela do computador. Como poderia relaxar se era forado a revelar...
	Christopher?
Virou-se para deparar com o rosto de Mary Hellen. Algo em sua entonao deixou-o apreensivo. As ris verdes continham um toque de melancolia.
	Sei que eu lhe falei que ficaria para ajud-lo durante alguns meses, mas talvez fosse melhor que eu...  Sua voz faltou, e ela respirou fundo. Com maior determinao, prosseguiu:  Acho que j  hora de eu partir. Voc e Ekhatherina esto se dando muito bem...
"...e a situao entre ns dois est to estranha!", Christopher deduziu a mensagem silenciosa dela. Ficou nervoso.
	Voc ainda no pode ir, Mary Hellen.
	Mas...
	A nica razo de tudo estar correndo de forma to tranquila por aqui  sua presena como intrprete.
Mary Hellen pareceu em dvida.
	J sabe a maior parte do que Ekhatherina diz, Christopher. Ela pede leite, biscoitos, ou avisa que a fralda est mida. Coisas elementares. Voc descobriria mesmo sem mim.
	Ainda no pode ir  repetiu.
Por que Christopher sentia-se to ameaado com a sugesto de sua partida? A mente dele girava to depressa, mas no encontrava a resposta.
	A situao com Ekhatherina pode estar sossegada  prosseguiu Mary Hellen , contudo, as coisas entre mim e voc...
Ela hesitou, cerrou os lbios e deu prosseguimento a seu raciocnio:
	Sempre fico imaginando quando um de ns ter coragem de admitir que h nuvens densas pairando sobre nossas cabeas. De novo.
Christopher no queria discutir o assunto que surgiu no dia em que foram fazer compras. No gostaria de ter de explicar o prprio comportamento, sua ira. Por isso, optou pelo silncio.
	Olhe, Christopher, nunca tive inteno de trazer discrdia a seu lar. No pense que deixei de notar como tem trabalhado pouco desde que sugeri que encontrasse uma esposa verdadeira.
Mary Hellen aguardava que ele dissesse algo. Mas Christopher no falou nada. No poderia.
	Eu devia ter guardado a opinio para mim mesma. Sei disso agora. E lamento por t-lo deixado bravo. Viver nesta quietude to cheia de estranheza  tolice.  hora de eu ir embora. Voc poder me enviar os papis para a anulao do casamento, e os assinarei.
	A anulao?
	Qual  o problema? Voc tem cuidado disso, no  mesmo?
	Mary Hellen, eu esqueci completamente.
	Esqueceu?!
	Desculpe-me. Ligarei para meu advogado hoje mesmo. Farei com que d entrada na papelada. No deve demorar muito para que os trnsmites legais sejam realizados.  Pegou um pequeno caderno preto de endereos e foi para a sada do escritrio.  Fiquem  vontade aqui. Usarei o telefone da cozinha.
Christopher no compreendia a reao frentica que teve diante da possibilidade concreta de perder Mary Hellen. Embora soubesse que tratava-se de uma oferta de paz, sentira-se ameaado.
Por isso, quis sair rpido de perto dela. No entendia o motivo de sentir-se assim.
A soleira, virou-se para encar-la, tentando com estoicismo acalmar os nervos e se controlar.
	E quanto ao problema entre ns, Mary Hellen, teremos uma conversa, est bem? Ajeitaremos tudo. Tornaremos a situao melhor. No quero que voc se sinta desconfortvel quando estiver perto de mim. No entanto, insisto que no pode ir ainda. No at Ekhatherina poder comunicar-se comigo. Eu... preciso de voc.
Era o mximo que Christopher era capaz de admitir. Logo em seguida, girou nos calcanhares e escapou dali.
Naquela noite, Christopher no conseguiu conciliar o sono. Por isso, foi para a sala e ligou o aparelho de televiso.
O noticirio, na voz do ncora, no o resgatou das conjecturas atribuladas.
Ficara arredio e preocupado durante toda a noite. Ekhatherina percebera sua agitao e acabara ficando irrequieta tambm e recusando-se a ir para a cama. Por fim, a menina chorara at adormecer, enquanto ele cantava todo seu repertrio de canes de ninar.
Era a primeira vez que isso acontecia desde que deixaram a Kyreznvia. Mary Hellen ficara ao batente do quarto da criana e perguntara apenas uma vez se poderia fazer algo para ajudar.
Christopher declinara da oferta, sentindo necessidade de lidar com o problema sozinho. Por fim, Mary Hellen fora para seus aposentos e se trancara l dentro, deixando-o ao mesmo tempo aliviado... e muito solitrio.
Sabia que estava errado. Precisava agir direito com Mary Hellen.
O relacionamento dos dois era muito voltil. Como uma pipa ao vento, ia para frente, depois mudava para a esquerda ou direita, sem aviso algum.
Haviam comeado muito bem. Ento ele cometera o erro de beij-la. Em breve, aclararam e explicaram tudo. Em seguida, entretanto, Christopher ficara bravo diante da simples sugesto de que devia se casar.
Sim, decidiu, a amizade deles parecia-se com um brinquedo, uma gangorra de parque de diverses.
Precisava restaurar a atmosfera de paz com Mary Hellen. Todavia, a questo seria se desculpar sem revelar demais. No gostaria que ela soubesse muitos detalhes acerca de seu passado. Se isso ocorresse, decerto Mary Hellen viria a ter uma imagem ruim a seu respeito.
Naquele instante, Mary Hellen entrou na saleta. Christopher prendeu a respirao. Ela parecia uma viso usando a camisola simples e branca, as alas finas revelando o colo e os ombros alvos.
	Sinto muito, Christopher. No sabia que voc estava aqui.
	No tem problema.
Algo no olhar de Mary Hellen f-lo indagar:
	Voc est bem?
	Eu... apenas tive um sonho ruim. E achei ter ouvido algo l fora.
Christopher postou-se na beirada do sof.
	Estou aqui h algum tempo, e no ouvi nada. Mary Hellen ainda parecia inquieta. Ele se levantou.
	Vou dar uma olhada na varanda.
O alvio e a gratido refletidos no lindo semblante eram uma recompensa antecipada para Christopher.
A noite no tinha vento. Estava quente e sossegada.
Christopher verificou o permetro da residncia e a garagem, e ento foi para o estbulo. Ambos os cavalos mostravam a respirao pausada e lenta, o que demonstrava estarem adormecidos.
O nico movimento se deu quando Chunky surgiu de um canto da cocheira e enrolou-se nas pernas de Christopher em busca de um pouco de ateno.
Ele inclinou-se e acarinhou as orelhas da bichana.
	Est caando, menina?
Chunky miou e depois correu para as sombras deixadas pelo luar.
Quando Christopher retornou a casa, Mary Hellen j tinha ido para o andar superior colocar o robe. As curvas delgadas e os ombros no mais estavam visveis, mas Christopher sabia que, para v-las, bastaria fechar os olhos e recordar.
	Est tudo em ordem, Mary Hellen. Tudo quieto l fora. Nem sinal de problemas.
	Melhor assim. Fiz um pouco de ch para ns. Espero que no se importe em ter um pouco de companhia. As vezes tenho dificuldade para adormecer.  raro, mas esta noite parece ser uma destas ocasies.
O sorriso delicado, como que pedindo desculpa, enterneceu-o. Mas imaginar que Mary Hellen poderia estar com insnia por causa do que lhe dissera encheu-o de uma terrvel sensao de culpa.
	Oua, Mary Hellen, lamento muito se... se a tenso entre ns a est aborrecendo a ponto de tirar seu sono.
Sentou-se no sof ao lado dela.
	Estive pensando sobre mim e voc. Cheguei  concluso de que nossa amizade parece uma gangorra.  assim desde que nos conhecemos. Em um minuto, estamos nos
divertindo juntos. No seguinte, estou sendo grosseiro.
A lembrana de tudo o que disse para Mary Hellen aps as compras no shopping o vexou.
	Sinto tanto... Queria que nos dssemos bem. Ekhatherina e eu precisaremos de voc por mais algumas semanas. Quero que fique confortvel aqui. Gostaria que se sentisse em seu prprio lar.
	No vou mentir, Christopher. Incomoda-me muito saber que est bravo comigo. Eu nunca devia ter levantado o assunto de voc vir a se casar.
	No estou zangado.
O sorriso de Mary Hellen foi tnue, mas capaz de despertar sensaes estranhas em Christopher. Seu sangue pareceu se aquecer, e a musculatura da cintura para baixo enrijeceu.
Estendeu a mo e pegou a xcara que ela lhe preparara, procurando deixar de lado as reaes corporais.
Entretanto, eram autnomas. Christopher no conseguia conter o aumento da presso sangunea ou a ao da testosterona.
Quando, enfim, voltou a fit-la, repetiu:
	No estou zangado, Mary Hellen. Juro. Lamento ter sido malcriado com voc. No devia ter me comportado de maneira to rspida.
Christopher desejou que o assunto terminasse por ali. Tornou a sentar-se no sof e se virou para a tela da tev. No podia dar mais explicaes. No suportaria revelar seu passado.
Mary Hellen jamais compreenderia. Afinal, nem mesmo ele entendia como pudera fazer aquilo. Como ento esperar que Mary Hellen aceitasse? No, no revelaria mais nada.
O silncio ficava mais pesado a cada segundo. Christopher olhou de soslaio na direo de Mary Hellen e viu que ela tambm assistia  televiso, mas sua expresso e a postura rgida revelavam que no estava nem um pouco interessada no comercial de automvel.
Christopher at compreendia a expectativa que emanava dela, o nervosismo que ela demonstrou ao aparecer na sala de estar. Decidiu que seria bom para Mary Hellen uma conversa que a fizesse esquecer-se do sonho ruim que a perturbara.
	Fui criado nesta casa.
	Oh, que agradvel! Menino de sorte! Sei que j disse isso antes, mas vale repetir. Sua propriedade  muito bonita.
Christopher achou graa.
	Nasci aqui, na Filadlfia. Fui para a escola e para universidade local. E voc, onde nasceu? A que lugar pertence?  O sorriso de Christopher esmoreceu ao v-la nervosa.
Mary Hellen foi gil em tentar esconder a reao, porm, no o bastante.
	Nasci em Elkhart, Indiana. Mas lar  qualquer local onde eu esteja.
Seria imaginao de Christopher ou Mary Hellen colocara uma nfase exagerada nas ltimas palavras?
	Ento,  uma garota do meio-oeste, certo?
Mary Hellen limitou-se a sorrir e a tomar um gole de ch.
	O que seu pai...
	No tenho pai.  Mary Hellen pareceu to surpresa com sua entonao quanto Christopher. Enrubesceu, embaraada.  Quero dizer... claro que eu tive um. Ocorre que nunca o conheci.

	Ah, ento foi criada por sua me? Mary Hellen fitou o vazio.
	No. Cresci em lares adotivos. Christopher no conteve um suspiro.
Naquele instante, um fato muito peculiar ocorreu. Mary Hellen sentou-se, bem aprumada, esboou um largo sorriso e permitiu que seu bom-humor habitual retornasse.
	No foi uma vida ruim, Christopher. De fato, eu diria que, no final das contas, at que tive uma boa infncia. Aprendi a lidar com tipos diferentes de pessoas, morando em todas aquelas casas. Com todas aquelas...
Houve uma breve hesitao, mas logo Mary Hellen prosseguiu:
	...famlias. Aprendi a ser independente, a contar comigo mesma. Compreendi que sou minha melhor amiga. E posso sobreviver a quase tudo.
O discurso retrico no parecia franco. Algo estava fora de lugar. Tratava-se de uma encenao. Christopher teve a distinta impresso de que Mary Hellen tentava desesperadamente esconder algo.
Devia conter a curiosidade, estava certo disso. Se ela queria se poupar de revelaes ingratas, devia permitir-lhe que assim procedesse.
No entanto, havia algo em seu olhar... Um brilho triste em suas pupilas.
Christopher sentiu-se tocado. Tinha de obter uma resposta.
 No foi to maravilhoso assim, no  mesmo?
Por um instante as feies dela ficaram rgidas, como a esconder-se sob uma mscara protetora. Christopher achou que Mary Hellen pretendia manter de p aquela parede de energia otimista.
Foi ento que ele notou um breve movimento na garganta delicada. Ela engolia em seco.
Em seguida, seus ombros penderam um pouco para a frente, e Mary Hellen emitiu um suspiro de incrvel melancolia.

CAPTULO VIII

A vulnerabilidade de Mary Hellen era insuportvel para Christopher. Queria toc-la, acalm-la, faz-la saber que no importava o que pudesse ter enfrentado, tudo ficaria bem.
Porm, Christopher lutava contra a vontade de ter novo contato fsico com ela. Sabia que no seria apropriado.
Entretanto, podia demonstrar sua considerao de outra maneira. Com gentileza, carinho. O mximo que pudesse, porque sentia que ela precisava.
	Voc  Mary Hellen gaguejava  est certo, sem sombra... de dvida.
Sua voz soava to pueril... O impulso de Christopher em proteg-la se intensificou ainda mais.
	Minha infncia no foi maravilhosa, de jeito nenhum. 
A estranheza na postura dos ombros de Mary Hellen e o desconforto em sua expresso mostravam que a admisso ia contra seu comportamento habitual.
Christopher reconheceu naquele instante que ela escondia muito atrs daquele belo sorriso. Ficou curioso de saber o que Mary Hellen precisou enfrentar quando criana.
	Fui para um orfanato quando muito nova. No tenho recordaes de meus pais.
Mary Hellen era rf, assim como a pequena Ekhatherina. A revelao tocava-lhe cada fibra do corao.
Como se lendo seus pensamentos, ela esclareceu:
	Eu no era rf, Christopher. Fui abandonada. Passei de um lar adotivo para outro.  tudo de que me lembro. Fazia novos amigos e depois perdia contato quando essas pessoas saam de minha vida aps alguns meses, ou um ano.
O olhar de Mary Hellen migrou de um canto distante da sala para a xcara que tinha na mo.
	Cheguei a ter boas experincias. A maior parte dos adultos que cuidaram de mim eram pessoas generosas e de boa ndole, que desejavam abrir seus lares para crianas desabrigadas. Contudo, alguns pertenciam a gente que apenas queria o dinheiro do governo. Abrigar garotos solitrios era um modo de conseguir isso. E tinham um bom lucro dando-nos a comida mais barata possvel e nos proporcionando roupas e sapatos de pssima qualidade.
Christopher observou-a mergulhar no passado triste. Duvidava que Mary Hellen tivesse conscincia do quanto estavam prximos fisicamente, to absorvida se encontrava na prpria histria.
	Devo dizer que tive sorte. Fiquei apenas em uma casa onde no fui bem tratada. Os pais adotivos eram muito rgidos. Gostavam de disciplina, era o que diziam. E eu achava que merecia a punio que recebia.
Sua voz no era mais que um sussurro.
	Recordo-me bem de uma vez em que fui espancada, porque no tinha arrumado a cama. Sabia que era uma regra importante. A lei, na realidade. No podia descer para tomar caf da manh a menos que o leito estivesse arrumado. Mas dormi at tarde, e teria enfrentado um
problema maior se chegasse atrasada  escola.
Seu belo rosto contorceu-se de leve com a indeciso que devia ter sentido, ainda pequena. Que regra devia ter quebrado? Deixar de arrumar a cama ou atrasar-se para a escola?
	Minha professora da terceira srie notou a marca que a cinta deixara em minha perna e chamou o Servio Social. Fui tirada da guarda deles no mesmo instante.
	Que bom! Espero que o governo tenha tomado a sbia deciso de no enviar mais nenhuma criana aos cuidados daquelas pessoas.
Mary Hellen piscou duas vezes, como se o comentrio dele a trouxesse de volta ao presente.
	Tenho certeza de que no fizeram isso, Christopher. A necessidade de pais adotivos era grande demais. Havia muitos menores e poucas casas. Sei que eles foram advertidos, mas isso, decerto, no mudou nada.
	O que  um completo absurdo!
Christopher sentia uma enorme raiva. "Ultrajado" era o termo correto, com o casal que machucara Mary Hellen. com o governo, por ter permitido que o tratamento prosseguisse com outros pequenos inocentes.
Mas tudo aquilo ocorrera tanto tempo atrs... A ira comeou a se esvair, dando lugar  tristeza.
	Algo fantstico aconteceu quando eu estava na stima srie. Um professor costumava colocar algumas fitas cassete espanholas na aula. No dia seguinte, fui para a escola falando um pouco de espanhol. At mesmo juntava palavras para formar sentenas. E, por algum motivo, as frases no saram mais de minha cabea. O sr. Callahan ficou impressionado. Acabou trabalhando comigo durante o ano todo. Ouvamos fitas francesas, italianas, russas... de todos os idiomas. Parecia-me muito fcil absorver a informao. Era como um jogo para mim.
A alegria de Mary Hellen tornava-a mais bela do que nunca. Christopher prendeu o flego, aguardando que o relato prosseguisse.
	Mudei de escola e perdi contato com o sr. Callahan, mas continuei adorando estudar idiomas. Tive aulas de francs e italiano, no colegial. A conselheira no queria que eu tivesse. Tentou me dizer que seria estudo demais que bastaria um idioma estrangeiro. Mas eu provei que conseguia, e continuei a aprender outras lnguas sozinha. Logo, ganhei uma bolsa de estudos em uma universidade estadual. Mary Hellen pousou a xcara de ch na mesinha lateral.
	Quem quer que tenha me dado esse dom divido... Deus, o destino ou a natureza... me salvou. Presenteou-me com algo em que focar a energia, a direo. Encontrei meu caminho.
Havia um trao muito grande de solido na ltima frase, considerou Christopher. Algo que necessitava de ponderao. Mas no deu-se tempo para pensar no assunto. Mary Hellen precisava de incentivo para continuar desabafando.
	E agora voc usa sua capacidade para ensinar crianas. Mary Hellen assentiu e quedou em silncio. Entretanto, rua mente ainda perambulava no passado.
	Eu procurei por meus pais.
Christopher pde vislumbrar o pesar e a rejeio que ela decerto experimentara.
	Quando fiz dezoito anos, fui ao Departamento de Servios  Infncia. O que descobri foi que no havia mformao alguma a respeito de meu pais. Nem tinha nome ou endereo. Nada. Mame colocou o nome de meu pai em minha certido de nascimento como John Doe.  Ela desistiu de mim no dia em que nasci, assinou um papel recusando-se a dar informaes a respeito dela a mim. E a qualquer outra pessoa. As mos do governo estavam atadas No podiam me revelar  nada.
Mary Hellen escondia bem a angustia. Mas Christopher era capaz de not-la e sentir-se muitssimo afetado por isso.
Aquela moa precisava ser abraada. Necessitava de algum consolo fsico.
Deixando de lado a xcara, aproximou-se e tomou Mary Hellen nos braos. E no houve a menor nuance de hesitao nela ao abandonar-se ao carinho.
 Est tudo bem  Christopher murmurou contra os cabelos cheirosos.  Voc no pode fazer nada sobre as escolhas que duas pessoas fizeram anos e anos atrs. Quem sabe quais as circunstncias em que se encontravam? Talvez fossem muito jovens e incapazes de...
Deixou a sentena inacabada, percebendo que nada do que dissesse abrandaria a dor de Mary Hellen. No havia consolo que pudesse banir o mal por ter sido rejeitada.
No importava o que pudesse explicar ou que situao mais agradvel Christopher tentasse desenhar para justificar o comportamento dos pais dela. Por isso, aquietou-se e a manteve junto a si.
Talvez o contato prximo de alguma maneira suprisse um pouco do amor e da compaixo que faltaram na infncia de Mary Hellen.
Longos minutos se passaram, e ela parecia feliz, aconchegada ao peito largo. No chorou, mas via-se que estava pesarosa.
Christopher deslizava as palmas para cima e para baixo nas costas dela, em ritmo lento.
Logo tornou-se consciente da suavidade da pele debaixo de seus dedos, do calor do corpo sinuoso, do aroma de flores da cabeleira ruiva, da sensao dos seios firmes contra seu trax.
No era hora de se sentir excitado. Mas, que os cus o ajudassem, era justo isso o que experimentava.
E no era uma paixo germinando e crescendo aos poucos. O desejo inflamado multiplicava de intensidade vindo do nada, dominando-o em um turbilho, quase esmagando-o, como uma imensa onda do mar.
Em um instante, vira-se preocupado; no seguinte, estremecendo por causa de uma volpia to intensa que quase roubava-lhe o flego.
A pulsao estava mais rpida a cada segundo. Christopher queria afastar a cabea, apreciar a viso do rosto plido como porcelana, contemplar os belos olhos verdes, beijar os lbios rosados at no haver um trao sequer de melancolia em Mary Hellen.
Contudo, no poderia fazer isso. No era o momento apropriado. Tampouco o local.
Ento lembrou-se de que nunca haveria momento nem lugar corretos. No com Mary Hellen. Ela era bondosa demais, muito frgil.
As poucas mulheres que escolhera namorar souberam desde o princpio que Christopher no tinha inteno de comprometer-se. Dava preferncia quelas que podiam cuidar de si mesmas. Apreciava as que eram to egostas quanto ele.
Dessa maneira, quando se via pronto para finalizar um relacionamento, o que sempre acabava fazendo, sentia-se confortvel por a garota ter condies de ficar bem. No a deixaria com o corao despedaado.
Porm, Mary Hellen no pertencia a essa classe. Era vulnervel, amorosa e carinhosa. Acabaria se machucando. Por isso ele precisava frear as sensaes fsicas. E ponto final.
Sentiu a mo de Mary Hellen no peito quando ela, com delicadeza, se afastou. Ergueu o queixo e encarou-o. Christopher achou que ia derreter com o calor daquele olhar. Mary Hellen analisou-lhe os lbios, e ento voltou a ateno de novo para os olhos.
Ela tambm sentia atrao. A constatao era bvia.
Para aumentar o martrio de Christopher, a vontade de beij-la tornava-se insuportvel. Mas recusava-se a capitular.
Mary Hellen significava muito para ele, e para sua garotinha tambm.
No entanto, a nsia avassaladora refletida no semblante de Mary Hellen devia ser semelhante  dele. Ambos queriam que aquele momento se transformasse em algo mais. Entretanto, nenhum dos dois ousava ultrapassar a linha divisria estabelecida, dando o primeiro passo.
Os motivos de Mary Hellen para hesitar no estavam claros para ele. Christopher j possua muitas peas do quebra-cabea sobre aquela bela jovem e o que pensava, mas ainda no conseguia formar uma figura completa.
Sabia muito bem, porm quais as suas razes. Eram fortes e corretas.
Enfim, Mary Hellen engoliu em seco e afastou-se mais. Os braos de Christopher escorregaram, desfazendo o enlace.
	Vc  um bom homem Muito bom, mesmo, Obrigada por deixar que eu desabafasse.
	Estarei aqui sempre que precisar, Mary Hellen. Sabe disso
Mas ela fitou o nada, como se no soubesse... ou quisesse saber.
Christopher desejava protestar. Detestava a idia de que o clima de estranheza pudesse retornar entre os dois
	J basta dessa conversa sombria. Conte-me o que voc descobriu hoje, quanto  anulao.
Christopher ficou grato por ter um assunto com que podia lidar bem.
	Descobri que ser bem fcil e rpido. Meu advogado comear a preencher a papelada amanh. E como ns dois podemos garantir que no houve... bem... Como no houve... contato fsico, consumao... dar tudo certo
Mary Hellen tentou esconder o embarao, e Christopher no pde deixar de pensar em como ficava mais bonita ainda com a face purpra.
	Ns sabamos disso no ?  Mary Hellen evitava olh-lo,  No houve nenhum problema.
Christopher ficou imaginando como Mary Hellen podia dizer aquilo se ambos haviam acabado de experimentar sensaes to poderosas. Mas talvez fosse melhor aterem-se aos fatos em vez de se envolver com sentimentos. Passaram mais alguns momentos conversando a respeito dos procedimentos legais e quando o assunto se esgotou, Mary Hellen disse:
	Acho que vou para a cama, Christopher. Est ficando tarde. E melhor voc ir tambm. O sol est prestes a nascer.
	Pois . Subirei em poucos minutos.
Mary Hellen levou as xcaras consigo para coloc-las na pia.
O televisor continuava a transmitir uma notcia qualquer.
Christopher viu-se sozinho. E exausto, como se tivesse participado de uma batalha imensa... e vencido.
A luta fora contra ele mesmo e a vontade imensa de possuir Mary Hellen.
Ao menos tinha confiana de que poderia vencer a atrao outras vezes, se o desejo aflorasse. E tinha quase certeza de que isso tornaria a acontecer.
Bem, se a fora de vontade sozinha no bastasse, sempre havia a possibilidade de um banho frio.
Entretanto, estava mais preocupado com outra coisa, algo que comeava a germinar. Mary Hellen despertava-lhe emoes que no queria sentir, de jeito nenhum.
Sim, um bom banho frio poderia cuidar da atrao fsica que o atormentava. Mas e quanto  emotividade? E aquilo tudo que lhe ia no corao, algo que prosseguia muito tempo depois de a luxria ter sido controlada?
Um banho de imerso  tarde. A idia era maravilhosa.
Mary Hellen acomodou-se na banheira, a gua passeando pelos dedos dos ps, pela barriga e pelos seios. Bolhas de espuma brincavam em cada ponto da pele exposta. Baixou as plpebras, permitindo-se o luxo de se entregar  preguia.
Suspirou, feliz, afundando-se mais. Duvidava que qualquer pessoa em Kyreznvia, at mesmo os cidados mais ricos, possussem uma banheira, e ainda por cima com sais de banho to deliciosos. No apreciava uma extravagncia assim desde que... Ora, nem mesmo se lembrava de quando.
Ekhatherina tirava uma soneca, Christopher se ocupava ao computador. E Mary Hellen relaxava com um bom livro em um paraso mido e borbulhante. No podia estar mais satisfeita.
Sem que percebesse, Christopher invadiu seus pensamentos. E sua cabea ficou repleta de recordaes do abrao que recebera na noite anterior. Recordou o perfume e o calor dele quando enlaou-a bem forte.
Com facilidade, lembrava-se do desejo danando nas ris castanhas. Tornou a fechar os olhos e sentiu o corpo respondendo  lascvia que Christopher lhe despertava. Sua epiderme arrepiou, e a regio do ventre e das coxas pareceu ferver.
Num movimento lento, Mary Hellen alisou a barriga e ento subiu para os seios, imaginando que era o toque de Christopher. A respirao acelerou.
"Ah, como o quero!" E ele a desejava tambm. Sabia disso. Vira em seu rosto, sentira a tenso dele.
Abriu os olhos quando um som chegou at ela, como que envolto por uma neblina, fazendo-a sentir-se temerosa. Por que sempre experimentava aquele turbilho terrvel?
O barulho que ouvira em seguida a obrigou a arregalar os olhos. O que fora aquilo? Uma porta batendo? Uma...
O som de passos pesados a fez sentar-se na banheira com tamanha fora que a gua espirrou no cho.
 Christopher? O que ?
Ento, Mary Hellen ouviu Ekhatherina chorando.
Como j morava naquela casa havia mais de duas semanas, conhecia os diferentes choros da menina.
Ekhatherina chorava de modo mais agudo quando queria ateno, mais brava quando frustrada. A modulao se modificava quando estava cansada ou com fome. Mas o que ouvia naquele instante era uma clara expresso de dor.
Mary Hellen se levantou da banheira, ensopando com o cho ao apanhar uma toalha. Enrolou-a ao redor de si e correu para a sada.
Entrou no quarto de Ekhatherina e viu Christopher em p, com a filha nos braos.
	Christopher! O que aconteceu?
	Ekhatherina tentou sair do bero e caiu. Graas a Deus no est machucada.
A culpa dele era tamanha que Mary Hellen quis estender a mo para confort-lo. E foi o que fez. Pousou os dedos em seu brao, e afagou as costas de Ekhatherina.
	No havia como prever esse acidente, Christopher.
	Ekhatherina podia ter quebrado o pescoo, Mary Hellen. Tenho de baixar o colcho do bero. Deve haver uma maneira de fazer isso...
	Tenho certeza de que h.  Ela sentia o remorso dele dilacerando-lhe a alma.  Mas, neste momento,  melhor colocarmos um pouco de gelo no lugar onde Ekhaterina bateu a testa.
	Claro!  Christopher apressou-se a seguir a instruo.  Como pude ser to tolo? Devo colocar uma compressa fria na testinha dela.
Foram para a cozinha a passos rpidos. Mary Hellen sentia-se pssima por ter feito piorar a crise de conscincia de Christopher ao mencionar o que fazer.
	O piso  acarpetado, Christopher. A queda no deve ter sido to dolorida.
Christopher abriu a porta do congelador.
	Deixe-me pegar isso  Mary Hellen adiantou-se. Ela colocou diversos cubos de gelo em um saco plstico e rodeou-o com um pano de prato limpo. Levou alguns instantes para fazer com que Ekhatherina deixasse que colocassem a compressa improvisada na marca avermelhada
Christopher sentou-se em uma cadeira, com a filha no joelho. Mary Hellen ajoelhou-se ao lado deles, tentando chamar a ateno da criana, e assim deixar que Christopher ajustasse melhor o gelo. Ekhatherina parara de soluar, mas continuava resmungando.
	Parece que ela no est sofrendo, Christopher.
	Sim, mas ainda h meio em seu rostinho. Aposto que a queda a apavorou.
Mary Hellen pde apenas assentir.
	Papai consertar seu bero, querida  ela disse  menina, que se virara para encar-la.
	Eu devia ter instalado o colcho na posio mais baixa quando montei aquele mvel. Se tivesse feito isso, ela no teria cado.
	Sim, mas voc teria quebrado as costas tentando colocar e tirar Ekhatherina de l.
	Melhor do que ela cair e quebrar o brao ou algo assim. 
Christopher sentia-se responsvel pela queda da menina, e Mary Hellen, desconfortvel quanto a isso.
	Christopher, voc no conseguir manter Ekhatherina segura em todos os instantes do dia. Far o possvel, mas  inevitvel que aconteam alguns imprevistos.
Christopher apenas fitava-a, o cenho franzido de preocupao.
	Eu me lembro de que, em um dos lares adotivos em que cresci, havia um porto de segurana colocado no topo de um lance de escada. Um garotinho, mais ou menos da idade de Ekhatherina, talvez um pouco mais velho, conseguiu subir no porto e caiu de l. Quebrou o nariz e seu olho ficou preto e inchado por vrios dias.
Ela suspirou e se voltou para Christopher.
	A casa estava cheia de gente, mas ningum viu o garoto subindo ali. Crianas tm seu jeito de meter-se em confuso.
Mesmo assim, ele permanecia em silncio. Assim como Ekhatherina.
A imobilidade de Christopher, sua inabilidade em se expor, diziam-lhe como estava aborrecido consigo mesmo e se sentia culpado por a filha ter se machucado.
Mary Hellen executava pequenos crculos coro o dedo na perna dele. Ento, deu-lhe dois tapinhas e falou com suavidade;
	No pode culpar-se por isso. Arrumaremos o bero para que a danadinha no consiga mais subir. Tudo ficar bem. Posso garantir.
De imediato, Ekhatherina estendeu a mozinha e tornou entre os dedos algumas bolhas de sabo que pairavam no ombro nu de Mary Hellen. A garotinha riu quando as bolhas delicadas desapareceram de repente.
Mary Hellen arregalou os olhos, lembrando-se ento que estivera tomando banho quando ouviu o barulho do quarto de Ekhatherina. Olhou-se de cima abaixo dando-se conta de que usava apenas a toalha.
O tecido fino se entreabrira na regio das coxas, expondo muito de sua nudez. Quando tornou a encarar Christopher constatou que ele no esteve olhando para o cho por se julgar culpado  mas sim observando com intensidade suas pernas!
Mary Hellen quis desaparecer da face da terra. Num gesto rpido, se aprumou e tentou, em vo, fazer com que a toalha cobrisse mais de que era possvel.
Christopher parecia to encabulado quanto ela, os olhos arregalados ao fit-la. Entretanto logo pode v-lo lutando para suprimir o riso que comeava a fazer suas pupilas brilharem.
Devia sentir-se humilhada por Christopher estar zombando dela. E brava. Chocada. Furiosa at. Mas nunca lisonjeada.
Mary Hellen no sorriria em resposta ao sorriso provocante e sensual. De modo algum!
Christopher flertava com ela. Podia ver isso em seu olhar faminto, no jeito sensual. Aquele homem a queria.
Mary Hellen sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, e um medo devastador a gelou.
	Eu... estava na banheira...  A verdade bvia saiu em tom de desculpa.  Quando ouvi o choro de Ekhatherina, fiquei apavorada. No sabia o que tinha acontecido...
"Por que estou gaguejando de novo? Ser que dei para isso agora?"
	Nem parei para...
Mais um pouco e Christopher soltaria uma sonora gargalhada.
	Posso ver, Mary Hellen.
O tom grave deixou-a ainda mais arrepiada. Sentiu os bicos dos seios intumescerem. E, para piorar, Christopher se ps a observ-la por inteiro, sem o menor constrangimento. E isso aps os pensamentos erticos que Mary Hellen teve com ele momentos atrs na banheira...
Mary Hellen cruzou os braos para proteger os seios. No havia um jeito gracioso de fazer aquilo sem que Christopher percebesse a exata reao que tentava esconder.
	 melhor eu ir l para cima... porque... Eu... acho que devo...
	Sim. Pode estar certa de que deve.
Diante do trejeito sexy, Mary Hellen s pde se virar e sair correndo da cozinha, ouvindo atrs de si o riso deliciado de Christopher ecoando por todo o ambiente.

CAPTULO IX

Christopher apreciava a mudana em seu relacionamento com Mary Helen. E sabia que o incidente das bolhas de sabo, pois era assim que se referia  situao ocorrida dias atrs, fora a causadora dessa modificao.
Estavam brincalhes um com o outro. Amigveis, em clima de flerte. Era tudo muito divertido e alegre, e Christopher recusava-se at mesmo a considerar, quanto mais contemplar, todas as implicaes disso. Preferia, por enquanto, concentrar-se em apenas em apreci-la.
Verificou a sela de Blaze e depois de Pepper. Mary Hellen vestia Ekhatherina. Os trs planejavam cavalgar at o parque e fazer um piquenique no caf da manh.
A possibilidade de viver acontecimentos especiais como aquele eram o motivo de sentir-se to abenoado por ser dono do prprio negcio e trabalhar em casa
A maioria dos homens e mulheres tinham de enfrentar trnsito na rota Blue, mas Christopher tomava o desjejum e apreciava o clima matinal exercitando um dos cavalos no parque que rodeava sua residncia. Sim, era um privilegiado.
Ento, percebeu que Mary Hellen tambm era uma bno em sua vida. Se no tivesse aparecido naquele restaurante de hotel em Kyreznvia procurando emprego, talvez Christopher no tivesse conseguido a custdia de Ekhatherina.
Devia muito a ela. Aps conhecer seu passado e infncia, sentia ainda mais vontade de proteg-la. E mais admirao. Ele ia lhe proporcionar um pouco de felicidade em sua estada na Amrica do Norte; parecia capaz de banir todas as dvidas e hesitaes que Christopher sentira quanto a isso.
Sem dvida a deciso de nenhum dos dois buscar um envolvimento de longo termo ou at mesmo um caso romntico ainda era firme. Mas isso no significava que ele e Mary Hellen no pudessem aproveitar bons momentos com Ekhatherina ou que no devessem ter recordaes agradveis de eventos que vivenciassem, vindo a ter algumas reflexes saudveis que poderiam acalentar depois que se separassem.
Depois que ela fosse embora.
As palavras ecoavam na mente de Christopher, os braos relaxaram nas laterais do corpo e o olhar baixou para estudar o cho. A idia daquela casa sem Mary Hellen deixava o com uma sensao...
	Estamos prontas!
 voz alegre de Mary Hellen interrompeu sua conjectura. Ekhatherina gritava deliciada para saud-lo; esticou o bracinho para locar nele.
	Voc adora esses cavalos no  mesmo, querida?  Christopher  acariciou os cabelos macios da menina
 Tem certeza que essa boa inveno para levar Ekhatherina consigo funciona?
	Tudo dar certo, Mary Hellen. Iremos devagar, farei com que ela se habitue a cavalgar. E eu tambm terei de me acostumar a ser um papai apache.
Christopher achava a preocupao de Mary Hellen encantadora. Na verdade, pouco havia nela que no julgasse cativante.
	Est duvidando de mim?
	Oh, no!  Mary Hellen riu.  Se algum pode lidar com a montaria e ao mesmo tempo carregar um beb, essa pessoa  voc.
Mary Hellen olhou para a garota.
	No concorda, Ekhatherina? Confiamos muito em seu papai. Christopher pode lidar com tudo.
O elogio enterneceu-o. Entretanto, no podia deixar de notar que a entonao animada demais denotava um qu de preocupao nublando a confiana que Mary Hellen tentava demonstrar.
Christopher colocou o indicador sob o queixo de Mary Hellen e ergueu-lhe o rosto para que o fitasse.
	Tudo dar certo  prometeu, com suavidade. O frio ar matinal pareceu repleto de eletricidade.
	Estou certa de que sim.
Aquele sorriso leve e cativante provocava emoes estranhas para Christopher. Era pura luxria. Christopher achou que o corao saltaria do peito.
Ajeitou as tiras nos ombros, e Mary Hellen colocou Ekhatherina na cadeirinha de lona atada a ele.
Durante todo o tempo, a criana batia palmas e ria, sabendo que algo excitante estava prestes a acontecer.
Blaze e Pepper foram conduzidos para fora do estbulo.
	Tudo pronto, Christopher?
	Sim, Mary Hellen.
Com Ekhatherina segura em suas costas, Christopher no pde ajudar Mary Hellen a montar Pepper, mas colocou a mo em sua coxa para ampar-la ao montar.
	Suco, frutas... tudo ajeitado nas sacolas de sua sela.
	Eu sou principiante nisso  Mary Hellen lembrou-o, dando um tapinha na mo ainda pousada em sua perna.
Com o calor da carne firme em sua palma, a suavidade dos dedos dela a cobrirem os dedos, Christopher acreditou que pegaria fogo a qualquer momento, por combusto espontnea. Soltou-a e deu um passo para trs.
Ele sorria ao pegar as rdeas de Blaze, na tentativa de disfarar a reao fsica.
	Eu me lembrarei de que tenho duas amadoras comigo esta manh.
Ekhatherina gritou de susto quando Christopher montou Blaze. Mas, assim que se viu bem instalada e o pai murmurou frases de conforto, ela ficou quieta, embora ainda se agarrasse a ele com firmeza.
A trilha estava banhada pelo sol, e flores coloridas eram avistadas entre arbustos de um verde exuberante. Carvalhos frondosos ofereciam-lhes sombra fresca, uma boa proteo para o sol de vero.
Aps um passeio de vinte minutos durante o qual encontraram um corredor solitrio nas trilhas do parque, Christopher sugeriu:
	Que tal se parssemos aqui para a refeio?
	Parece timo!  Mary Hellen ajeitou os cabelos. 
Ela apeou com facilidade e enrolou as rdeas de Pepper em uma cerca.
Christopher procurou avisar Ekhatherina de que estavam prestes a apear.
	Vamos descer, querida.
Sem esperar que Mary Hellen traduzisse para a menina, Christopher levantou a perna por sobre a sela.
Ento, sentiu uma dor intensa na cabea, fechou os olhos e fez uma careta.
	Ai!  Estendeu a mo e, com delicadeza, segurou os pulsos da filha.
Mary Hellen levou a mo  boca, num esforo hercleo para no soltar uma estrondosa gargalhada. Christopher, apesar do sofrimento, no conseguiu ficar zangado.
	Acho que Ekhatherina encontrou corrimos perfeitos  disse Mary Hellen, zombeteira.
	No so corrimos. So minhas orelhas!
Mary Hellen, por fim, cedeu ao riso. Ekhatherina tambm, parecendo felicssima por ter causado tamanha confuso entre os adultos.
	Voc, por favor, poderia me ajudar a tirar este pequeno fardo das costas?
Mary Hellen continuava a gargalhar, ao mesmo tempo soltando o nen. Tudo o que Christopher pde fazer foi massagear as orelhas vermelhas.
Ekhatherina andou cambaleante na direo da mesa de piquenique, parando ao longo do caminho para investigar plantas rasteiras e outros itens que lhe interessaram.
Christopher tentava livrar-se da cadeirinha de lona atada aos ombros, mas uma tira ficou presa em um deles. Sem perguntar nada, Mary Hellen veio em seu auxlio. Livrou-o da cadeira e ajeitou-a sobre a sela.
Christopher ps as mos na cintura e arqueou as costas, alongando os msculos. Inclinou o pescoo de um lado para outro. Sentiu a presena de Mary Hellen atrs de si e ficou imvel quando o calor das palmas delicadas comeou a passear pela musculatura de suas omoplatas.
Ela o massageava, apertando os polegares nos lugares corretos. Christopher conseguiu disfarar um gemido de satisfao e fechou os olhos. Mary Hellen tinha dedos mgicos. Entretanto, seu toque gentil deixava-o zonzo de prazer. Como era sensual!
Ento, sentiu os dedos leves com delicadeza se aproximando de sua orelha esquerda. A garganta ficou seca, e Christopher parou de respirar, aguardando.
	A vermelhido vai passar, Christopher. Creio que voc conseguir sobreviver.
O hlito doce estava bem prximo, e lanou um arrepio gostoso pela coluna de Christopher, de baixo para cima. Sentia a regio da virilha queimando.
Queria abra-la, inalar o cheiro de seus cabelos e pele, tocar toda a extenso do pescoo elegante com as mos e os lbios. E, em um momento de insanidade, Christopher submeteu-se ao que o atormentava.
Sem aviso, virou-se, sorrindo diante da surpresa que pde notar no semblante adorvel. Segurou Mary Hellen pelos braos para que ela no pudesse retroceder. Seus belos olhos se arregalaram.
	O sol da manh deixa sua cabeleira como uma chama  ele murmurou, certo de que a metfora era provocada pelo fogo que o consumia por dentro.
Christopher amparou-a contra o peito, mal tocando o nariz em sua tmpora.
	Seu cheiro  to bom...
Mary Hellen sentia-se pequenina naqueles braos. Delicada e frgil como uma flor.
Christopher passou a ponta do nariz pelo rosto dela, da testa ao queixo e ento para cima, ousando tocar a pele macia da face com o queixo. Em seguida, pressionou de leve sua boca. Como Mary Hellen era suave!
Christopher se deu conta que se sentia feliz pelo simples fato de estar perto dela. No entanto, tal felicidade foi mostrando-se insuficiente e cedeu lugar a uma necessidade incrvel de sabore-la, toc-la mais.
Christopher esgueirou os dedos por trs das orelhas de Mary Hellen e analisou seu olhar, desejando decifrar como reagia ao que ocorria entre os dois.
Seu recm-formado instinto de pai, contudo, o fez olhar de relance para a filha, que ocupava-se em reunir algumas folhas. Sentiu segurana em contemplar Mary Hellen mais uma vez, buscando saber o que ela sentia.
Sua expresso era impossvel de definir. Um mistrio que Christopher queria desesperadamente desvendar, reificou um misto de emoes. Incerteza, confuso, espanto, dvida. Medo?
Foi ento que vislumbrou o desejo. Puro e intenso.
A paixo que leu nas ris verdes parecia indesejada, como se Mary Hellen no quisesse, no devesse senti-la. Mas estava ali, na respirao entrecortada e no corpo trmulo.
Gomo a confirmar seus pensamentos, ela murmurou, com suavidade:
	No devemos, Christopher,
	Pois eu no me importo. E voc?
A volpia tambm a dominava, isso era bvio. Sem hesitar, Mary Hellen relaxou junto dele.
O sabor de Mary Hellen era doce. A boca, delicada, quente.
Afastando-se um pouco, ela falou, contra os lbios dele:
	Ekhatherina...
A preocupao para com a menina bem no meio de um beijo apaixonado fez Christopher desejar apenas peg-la com toda a fora e beij-la mais Mary Hellen; um ser humano fabuloso.
             Ela est bem  garantiu, lanando outro olhar de soslaio par a menina para certificar-se. Seu beb adorvel separava folhas e gravetos em pilhas para Mary Hellen, que baixou as plpebras parecendo tambm gostar daquele carinho proibido.
Talvez Christopher devesse solt-la e se esforar para esquecer a existncia daqueie beijo. Entretanto, a necessidade de abraa-la, beij-la atormentava-o fazia tanto tempo; pela primeira vez em semanas, notou que a agonia no poderia mais ser sustentada. Por isso, no desistiria daqueles momentos preciosos.
Beijou uma plpebra. E ento outra. Um canto da boca, depois o outro lado.
Mary Hellen encarou-o e, por um nico instante, Christopher percebeu como suas almas se conectaram. Foi ento que ele soube.
Estava se apaixonando.
A dra. Smyth auscultou o corao de Ekhatherina e depois pressionou o estetoscpio nas costas da menina. A pediatra sorriu para Christopher quando Ekhatherina bateu os bracinhos e riu.
	Ela  uma criana feliz.
Christopher limitou-se a aquiescer. No deixaria que a boa mdica o distrasse. Ouvira falar em imunizao de crianas, e no estava disposto a permitir que a filha sofresse.
	Muitos bebs desta idade costumam gritar durante a primeira visita a meu consultrio.  A mdica colocou Ekhatherina na balana e inclinou-se para fazer a leitura.
Christopher sentia as mos midas, e passou-as pela cala comprida. No gostava da idia de a dra. Smyth estar prestes a machucar sua garotinha com agulhas, embora soubesse que um pouco de dor seria necessrio e que poderia salvar a vida de Ekhatherina nos anos vindouros. Mesmo assim, no conseguia conter a relutncia.
	Hum...  a mdica murmurou.  O peso dela est no limite inferior da tabela.
Christopher arregalou os olhos.
	Isso  muito ruim?
	Bem, Ekhatherina parece saudvel.
	, sim, muito  apressou-se em garantir.  Pelo que sei.
A dra. Smyth assentiu, no desviando a ateno do exame que fazia na menina. Estendeu uma bola e pareceu satisfeita quando Ekhatherina inclinou-se para peg-la.
	Sua viso e coordenao motoras parecem normais. Meu palpite  que ela no teve muito o que comer durante sua estada no orfanato. Como Ekhatherina tem se ali mentado desde que a trouxe para casa?
	Come muitssimo bem. Tem um apetite voraz.
A mdica achou graa.
	timo. Farei apenas uma anotao na ficha dela para ficarmos bem atentos a seu peso.
O exame prosseguiu, e a mente de Christopher mais uma vez foi capturada pela idia daquelas agulhas, que, sabia, nos prximos cinco a dez minutos estariam espetando sua garotinha.
Colocando Ekhatherina no cho, a doutora encorajou a criana a caminhar pela pequena sala.
	Seu equilbrio  excelente. Ekhatherina anda bem. Como qualquer outra menina de seu tamanho.
Por fim, Christopher no pde mais conter a ansiedade:  Vamos falar sobre as vacinas para Ekhatherina. A dra. Smyth pareceu surpresa, e ele sentiu um calor no rosto.
	Est bem, sr. Kimball. Poderemos conversar sobre a vacinao dela, se  o que quer.
Embora tentasse relaxar, Christopher sentia a musculatura tensa.
A mdica analisou a planilha de Ekhatherina. Em seguida, disse:
	Como voc sabe, sua filha recebeu algumas das vacinas necessrias e fez teste de tuberculose antes de permitirem sua entrada no pas. Contudo, ainda h algumas providncias a serem tomadas.
	Como assim?
	A imunizao  feita em doses. Algumas levam trs. Outras, quatro. E so ministradas no perodo de doze a dezoito meses.
Christopher franziu o cenho diante da perspectiva de ter de sofrer daquela ansiedade no decorrer do prximo ano e meio.
Claro, a mdica notou sua apreenso.
	Prometo, sr. Kimball, que no vou espet-lo com uma agulha.
Ele sorriu diante da tentativa de acalm-lo, mas a idia de ver sua Ekhatherina chorando enervava-o,
	Talvez sua esposa devesse estar aqui com voc e a filha...
	Oh, no, Mary Hellen... a moa na sala de espera... no  minha esposa. Ela ... bem... nossa bab.
O termo "nossa" soava tolo, Christopher concluiu assim que o deixou escapar.  Mas era como via Mary Hellen desde o dia em que a conheceu. Algo quase pessoal. Especial. Por isso, no se importava com o modo como soava,
	Ah, est certo. Talvez queira que ela esteja aqui, de qualquer maneira sr. Kimball para dar uma espcie de apoio moral a voc e  sua filha.
A sugesto fez todo o corpo dele reagir. De imediato, ficou mais calmo, e, aps umedecer os lbios, suspirou,
	Acho que  uma grande idia
Aps alguns minutos e embora a doutora tivesse lidado com a seringa com bastante destreza, Ekhatherina no parava de chorar. Mary Hellen e Christopher faziam o possvel para confort-la, e a mdica fazia anotaes finais na ficha.
	Saiu-se muito bem Ekhatherina  a dra. Smyth afirmou, passando a mo no brao da criana.
Mas Ekhatherina escondeu o rosto nc pescoo do pai
	Sr. Kimball, minha secretria marcar a prxima consulta para daqui a dois meses.
Assim que a mdica deixou os trs a ss Mary Hellen se ps a vestir Ekhatherina.
	Meu Deus!  Christopher parecia desconsolado.  Detesto imaginar ter de voltar aqui. Pudera as crianas chorarem! O que acho impressionante  que os pais no gritem e chutem tambm. E saiam correndo.
Mary Hellen riu.
	Quando a dra. Smyth aproximou-se de Ekhatherina com aquela agulha, tive certeza de que voc faria isso: sairia correndo. Mas  necessrio, voc sabe.
Christopher assentiu, aborrecido.
	Sei, sim. E que... achei que minha tarefa no teria tropeos. Eu iria proteger esta criana preciosa de qualquer dor, e ponto final.
	E est fazendo isso trazendo-a aqui.
	Mas me sinto to estranho. Culpado.
Mary Hellen puxou Ekhatherina do abrao protetor de Christopher apenas o suficiente para passar o vestido pela cabecinha. Ento, abotoou nas costas.
	Tenho de admitir, Christopher, que achei que meu corao se partiria em dois quando vi Ekhatherina comeando a chorar. Mas a dra. Smyth foi bem gil.
Christopher fitou Mary Hellen se sentiu uma onda de alvio por ela estar ali para dividir aquele momento de agonia com ele.
Os trs foram para a recepo, e Mary Hellen tomou Ekhatherina do colo de Christopher para que ele pudesse preencher o cheque para pagar a consulta.
Ao aguardar o recibo, ele tornou-se muito consciente de Mary Hellen em p logo atrs, ninando Ekhatherina com muita gentileza.
Desde que descobriu a natureza de seus sentimentos por Mary Hellen, sentia-se dividido. Por um lado, queria dizer a ela. Adoraria saber se havia a possibilidade de terem um relacionamento amoroso. Mas... sabia que devia manter a boca fechada a esse respeito.
Gostaria de v-la magoada? Porque, caso se envolvesse romanticamente com Mary Hellen, isso na certa ocorreria.
Ora, mas a quem tentava enganar?, indagou-se. S havia uma escolha para ele. Devia guardar seu segredo para si.
A recepcionista lhe estendeu o recibo e o pedao de papel onde estava anotada a data e o horrio da prxima consulta de Ekhatherina.
Christopher murmurou um agradecimento e virou-se para Mary Hellen. Prendeu a respirao ao encarar os olhos lmpidos e to verdes.
E ficou imaginando como conseguiria no revelar nada acerca do que se passava em seu peito.

CAPTULO X

 Ol, Bob  Mary Hellen cumprimentou ao entrar no estbulo.
O homem reservado fez um meneio em silencioso cumprimento e continuou a tarefa de espalhar feno fresco na baia de Blaze.
Bob realizava muito bem seu trabalho, sem dar-se a conversas. Na verdade, sem dizer uma nica palavra quase nunca. Bob Davis era algum que no gostava de falar, isso estava claro. Era esse o motivo de Mary Hellen sentir-se segura em ir at a cocheira para divagar.
	Importa-se se eu ajud-lo a escovar os cavalos hoje, Bob?
	Sem problemas  murmurou, fitando-a de soslaio. A baia de Pepper estava com cheiro doce de feno fresco.
Mary Hellen cumprimentou o animal e passou a palma da mo pela extenso de seu pescoo. A escova era um tanto pesada, mas ela logo habituou-se, e comeou a pass-la pelo lombo de Pepper.
As duas semanas desde que ela e Christopher se beijaram no parque foram as mais esplendorosas de sua vida. Mas sabia em seu corao que o clima de flerte entre os dois nada significava.
Christopher dissera-lhe, quando Mary Hellen sugeriu que encontrasse uma companheira, que no tinha interesse em manter um relacionamento. E, mesmo que tivesse, Mary Hellen no ficaria ali por muito tempo.
De fato, recebera a notcia de que havia uma posio disponvel na Eslovquia. Necessitavam de sua presena j, mas segurariam a vaga para ela durante quinze dias.
Mary Hellen fora para o estbulo a fim de planejar a melhor maneira de contar a Christopher.
Mais uma semana ali com ele e Ekhatherina deveria bastar. Em seguida, voaria para a Eslovquia com tempo livre para encontrar um lugar para morar antes de comear no novo emprego.
A cada dia que passava, Christopher parecia mais e mais confortvel em seu novo papel de pai de Ekhatherina. E a criana, muito feliz em seu novo lar na Amrica do Norte.
Em pouqussimo tempo, nenhum dos dois precisaria de sua presena, e essa fora toda idia desde o princpio.
Ento o flerte entre ela e Christopher precisava ser aproveitado antes que acabasse. Podia ser apenas temporrio, mas decerto era divertido!
Mary Hellen no sentira jamais uma alegria to pura como nos momentos em que esteve nos braos de Christopher.
Pepper relinchou suavemente, parecendo sentir que Mary Hellen sorria.
Entretanto, uma nuvem pequenina e negra pareceu formar-se sobre ela quando pensou na perspectiva de dizer a Christopher que um trabalho a aguardava. Com certeza ficaria contente e aceitaria a novidade com...
Bob tossiu.
	Eu, bem...
Surpresa pela bvia inteno de Bob em conversar com ela, Mary Hellen olhou em sua direo, a mo pousada no lombo de Pepper.
	Estive pensando em lhe dizer... acho que nunca vi Christopher to alegre. Ele costumava ficar metido naquele escritrio de doze a catorze horas por dia. Agora, vai fazer compras, piqueniques no parque... Estou achando timo. Mary Hellen arregalou os olhos. Nunca ouvira tantas frases assim de Bob.
	Ele est feliz  Mary Hellen concordou.  Ekhatherna mudou sua vida.
Bob pigarreou.
	Caso no se incomode com meu comentrio, Mary Hellen, acho que a pequena, Ekhatherina no  o nico motive por trs do bom humor dele.
Mary Hellen enrubesceu, embaraada. Bob dava a entender que ela era o motivo da mudana em Christopher. Mary Hellen sentiu vontade de mudar de assunto. Mas Bob precisava saber a verdade. Ela no poderia permanecer ali.
Porque?, a pergunta ecoou em seu crebro. Porm, Mary Hellen afugentou-a, assim como nas outras vezes em que a questo surgiu. Deixou de lado a escova e deu alguns passos para mais perto de Bob.
	Olhe eu no ficarei aqui. Tenho um emprego me esperando na Eslovquia. Partirei em breve. Apenas vim para fazer com que a transio de Ekhatherina corresse com mais tranquilidade.
Bob parou de mexer com o feno e a encarou pela primeira vez
	Christopher me falou isso. Mas  que... bem, pareceu-me que... as coisas haviam mudado.
O clima divertido que ela e Christopher vinham partilhando podia ser inocente na cabea deles, mas era bvio que o comportamento fora notado por Bob e alterara a percepo dele quanto  situao.
Como Mary Hellen nada respondeu, Bob disse:
	No queria ser intrometido, e decerto no devia estar me metendo, mas est sendo bom para Christopher ter uma mulher em seu caminho. Temo que ele possa no ter coragem de lhe falar isso. Por essa razo eu estou dizendo.
Mary Hellen sorriu. Sim, aquele homem estava sendo um tanto indiscreto, mas no o culpava por sua preocupao para com Christopher. Era bvio que sua inteno era boa.
Alm do mais, a observao de Bob de que uma companhia feminina para Christopher lhe fazia bem apenas solidificava a idia de que o papai de Ekhatherina precisava achar sua alma gmea.
Mary Hellen pensara nisso desde o princpio. Era verdade que Christopher no gostara muito da sugesto quando fora trazida  tona, mas isso no a tornava menos interessante e correta.
A mente de Mary Hellen parecia girar. Talvez... apenas talvez... tivesse coragem de mencionar isso de novo antes de deixar aquela casa para sempre.
	Voc tambm no parece infeliz aqui.  Bob esboou um raro sorriso, que iluminou seu rosto enrugado.
	Est certssimo em dizer isso.
Bob parecia estar esperando que Mary Hellen elaborasse algo. Como nada falou, ele prosseguiu:
	Ento por que precisa ir embora? Justo quando voc e Christopher parecem estar se dando to bem...
A ltima sentena continha mais insinuaes do que Mary Hellen gostaria de admitir que notara. Mais uma vez sentiu-se embaraada. Ela e Christopher vinham brincando um com o outro, divertindo-se com a atrao fsica que nutriam um pelo outro.
Contudo, isso nada significava. No poderia significar.
Era apenas diverso, um entretenimento. S isso. Ainda assim, como explicar a Bob? Parecia pessoal demais, muito ntimo. Por outro lado, Mary Hellen sentia que Bob merecia saber o que se passava.
Desse modo, abriu o porto da baia, passou e fechou-a atrs de si, dirigindo-se  baia aberta onde Bob estava ao lado do cavalo. Precisava faz-lo compreender, de uma vez por todas, qual era a realidade dos fatos.
	No posso ficar aqui.  Sua voz soou frgil bem no momento em que quis que parecesse forte e firme.
Mary Hellen decifrou algo mais tambm em sua entonao. Contudo, no sabia o que era. Bob achou graa.
	Parece to insegura...
Era isso! E o fato de Bob ter sido capaz de reconhecer a indeciso quando ela mesma no fora, a fez enrubescer de novo.
	Diga-me, Mary Hellen, por que no pode ficar?
	Bem, eu...  gaguejou.  Tenho um emprego na Eslovquia.
Bob afastou a idia com um breve gesto com a mo larga e cheia de calos.
	Empregos h muitos. Voc pode trabalhar em qualquer lugar.
O fato de Bob ter desprezado sua nica boa e slida desculpa deixou-a mais aborrecida do que podia suportar. O medo comeou a tomar conta de seus sentidos, e Mary hellen entrou em pnico.
	No posso ficar aqui, Bob. No posso!  E ento saiu correndo do estbulo.
	Bem, est quase pronto.
Ouvir Christopher resgatou Mary Hellen de seu estado contemplativo. Estava sentada na varanda dos fundos, apreciando os sons agradveis da noite. Usava camisola de cetim e robe combinando, e fora para l na tentativa de relaxar um pouco.
Tinha muitos problemas com os quais lidar. O modo como fugira da cocheira e das perguntas de Bob na vspera obrigaram-na a encarar todas as implicaes associadas quele ato intempestivo.
Precisava contar a Christopher sobre o trabalho que conseguira e pr fim ao clima de provocao e flerte entre eles.
Mas no queria interromper as brincadeiras. Christopher fazia com que ela se sentisse to bela, to feliz, to viva!
A varanda parecera o lugar perfeito para lidar com tantas questes perturbadoras. Uma coisa era certa: desde que chegara aos Estados Unidos tornara-se mestra em fugir de ansiedade e problemas.
Suspirou e sorriu na escurido.
	O que est quase acabado, Christopher? Ele sentou-se.
	Nosso casamento.
O clima agradvel da noite pareceu tornar-se glido de repente,
	Os papis da anulao chegaram?  Ela sentou-se bem aprumada, colocando os ps descalos no cho.
	Sim.  Christopher ergueu o grande envelope para que Mary Hellen visse.  Precisamos apenas ler e assinar os documentos, e ento meu advogado cuidar de tudo o mais.
	Nossa!
Mary Hellen no entendia o que estava sentindo. Era como se o enlace tivesse sido real.
Porm, tudo acontecera para que ele pudesse tirar Ekhatherina de Kyreznvia apenas isso. Mesmo assim, era como se mais uma pea do quebra-cabea estivesse sendo colocada no lugar. As outras pertenciam ao emprego dela. E a necessidade de Christopher e Ekhatherina de sua permanncia ali diminuam a cada dia.
Em breve, nada restaria para mant-la naquela propriedade. Sem saber o que dizer, murmurou:
	Foi tudo muito rpido.
	De modo geral, o sistema legal coloca empecilhos em tudo. No entanto, neste caso, permitiu que tudo corresse com rapidez, por incrvel que parea.
Christopher olhou para o escuro e acrescentou, com ironia:
	Que sorte a minha!
	O que quer dizer? Era isso que voc desejava. O que ns queramos.  Mary Hellen percebeu, apesar da penumbra, que Christopher sorria.
	Claro...  Ele, ento, sorriu com mais intensidade.  Estava apenas provocando voc.
A voz dele tornara-se deliciosamente suave, e Mary Hellen sentiu o sangue se aquecendo. Devia controlar-se. Precisavam discutir um assunto importante. O trabalho que a levaria para longe, e tambm os papis da anulao.
Mary Hellen passou os dedos para cima e para baixo no pescoo.
	Bem, o que faremos agora, Christopher?
	Nada. Alm de assinarmos na ltima linha destes formulrios. J que a anulao  incontestvel e no houve contato sexual...
O ar pareceu tenso.
	Beijos no contam.
Ela tentou achar graa diante do comentrio provocante. Christopher tentava tornar a situao mais leve, muito embora a tenso reinasse entre eles. Mary Hellen pressionou a palma contra a barriga, na altura do estmago, e respirou fundo.
	Voc est bem, Mary Hellen?
	Lgico.
Aps um momento, Christopher levantou-se.
	Vamos para meu escritrio terminar logo com isso.
Minutos mais tarde, inclinada sobre a escrivaninha, Mary Hellen pressionou com fora a ponta da caneta contra o documento oficial para evitar que a mo tremesse. A assinatura no ficou to ntida quanto gostaria, mas era seu nome legal, de qualquer maneira.
A caneta parecia voar de pgina a pgina enquanto Christopher assinava os papis que declaravam que o breve casamento deles no mais existia. Como se nunca tivesse acontecido.
	Pronto!  Christopher colocou a esferogrfica sobre o tampo e endireitou a coluna, suspirando.
	Ento, no sou mais a sra. Christopher Kimball.
	E engraado, mas nunca cheguei a pensar em voc como sendo.
	E por que deveria?
Mas, mesmo ao sorrir, fingindo descaso, Mary Hellen sentia como se uma faca entrasse em seu corao.
	Mary Hellen Ritter... A melhor bab do mundo.  como sempre me lembrarei de voc.
Como as palavras a magoavam! Dilaceravam sua alma. Mas por qu?, Mary Hellen tentava imaginar. Por que se sentia ferida com o que ele dizia?
O comentrio nem deveria afet-la. Afinal, desde o princpio soubera que o jogo que vinham levando era apenas um flerte.
Tinha conscincia de que Christopher no estava interessado em um relacionamento estvel. Tampouco ela estava. Divertiram-se ao se provocar, ambos sabendo que em breve aquilo chegaria ao fim.
Desse modo, por que experimentava a tortura terrvel apenas em escut-lo verbalizar o que ela sempre soubera ser verdade?
"Porque voc o ama!"
"No!" A negativa silenciosa foi firme. No podia ser. No permitiria que fosse.
Segundos que pareceram horas se passaram. Mary Hellen precisava conversar sobre algum outro assunto, exceto o que o casamento havia ou no sido ou qual o significado da anulao.
Tambm no queria falar de como ele se lembraria de sua estada na Filadlfia.
Necessitava com urgncia afastar qualquer idia de seu afeto por Christopher. Tratava-se apenas de volpia, algo que vinha conseguindo manter sob controle.
O que sentia no era amor. Amar Christopher no era uma possibilidade.
O caos em seu interior quase a deixava maluca. Lutou por encontrar algo para dizer.
	Eu queria lhe contar... queria que voc soubesse... 
Christopher virou-se para fit-la, e Mary Hellen constatou naquele instante que no havia homem mais belo na face da terra. Por que o destino dera-lhe olhos to maravilhosos?
	Consegui um emprego, Christopher! Na Eslovquia.
Ele franziu a testa, e estava prestes a responder quando um grito pesaroso veio do quarto do beb, alertando-os de que Ekhatherina acordara.
Christopher pediu licena a Mary Hellen para ir ao encontro da filha.
Mary Hellen reuniu os documentos e ajeitou-os em uma pilha perfeita. Ento, colocou-os de volta no grande envelope. E experimentou uma desolao devastadora que encheu seus olhos de lgrimas.
No choraria. No poderia fazer isso! Era uma mulher adulta, amadurecida. Envolvera-se naquele esquema todo conhecendo as regras. No poderia esperar que elas mudassem a seu bel-prazer.
	No quero que as regras mudem  sussurrou.
Mas mesmo enquanto falava, sabia que mentia.
Bem, decidiu, teria de continuar vivendo com essa mentira. Christopher nunca descobriria o que lhe despertara. Afinal, no pensava em nela daquele jeito pessoal, profundo e ntimo.
Flertar, dissera palavras doces, provocara-a, beijara-a. No entanto, fora mera diverso. Ambos sabiam disso.
E os comentrios proferidos por Christopher minutos atrs eram uma prova disso.
	"A melhor bab do mundo"  Mary Hellen repetiu.
Parecia bvio que seu afeto por ela no ia alm disso.
Mary Hellen preocupava-se muito com a impossibilidade de continuar escondendo de Christopher o que lhe ia no corao no decorrer dos dias que viriam.
Foi quando ouviu-o cantando com incrvel suavidade para a filha. Sorriu, a despeito das emoes nebulosas que a envolviam.
Christopher amava Ekhatherina do fundo da alma. E a garotinha passara a adorar o novo papai tambm,
A bab eletrnica instalada na cozinha transmitia os sons do dormitrio da menina, que parecia repetir uma palavra vezes e vezes.
Ainda pensativa, Mary Hellen foi para a cozinha e abriu uma porta do armrio, de onde tirou uma xcara plstica de Ekhatherina. Dirigiu-se  geladeira e pegou a garrafa com suco de ma.
Christopher surgiu atrs dela, com Ekhatherina nos braos, no instante em que Mary Hellen fechava a porta do refrigerador,
	Sinto muito, Mary Hellen, mas no sei o que Ekhatherina est pedindo. Imaginei que j havia aprendido bastante de seu idioma, mas isso  novo para mim.
	Bebe  Ekhatherina balbuciou, olhando com expresso de splica para Mary Hellen.  Bebe.
	Aqui, querida.  Mary Hellen ofereceu a xcara com suco para a menina.  Ela quer beber.
Mary Hellen, ento, arregalou os olhos. Pegara o suco sem ter conscincia do que ouvia atravs da bab eletrnica.
	Ela quer uma bebida!  Mary Hellen disse, estupefata.
Mesmo assim, Christopher no pareceu compreender a relevncia daquilo.
	Em nosso idioma, Christopher! Apenas no pronunciou muito bem.
Christopher foi contagiado pela excitao dela.
	Minha menininha est aprendendo nossa lngua! 
Ekhatherina riu, o cansao deixando o belo rostinho. Mary Hellen creu que a criana no devia compreender o motivo da alegria do pai, mas parecia satisfeita em juntar-se a animao reinante.
	Isso pede uma comemorao!  Christopher declarou. 
Mary Hellen foi direto para o armrio.
	Sim, precisamos de um brinde. Suco de ma para todos?
	Suco de ma ser to bom para mim quanto champanhe, agora.
Brindaram, e Christopher props:
	A Ekhatherina!
	A Ekhatherina!  Mary Hellen repetiu, antes de tomar um gole.  Nossa princesa progredir no aprendizado a uma velocidade assustadora. No haver como det-la.
Christopher voltou o olhar embevecido para a filha.
	Isso  fantstico, querida. Logo o papai ser capaz de compreender tudo o que voc disser. E vai me entender tambm. No  o mximo?  Virara-se para Mary Hellen ao fazer a pergunta.
Ela assentiu, mas em seu peito constatou que a ltima pea daquele complicado quebra-cabea, a razo primeira para justificar sua permanncia naquela casa, acabara de ser colocada no lugar.
Os dois j no precisavam mais dela.
Deu alguns passos na direo da varanda. Ouvia o som de grilos e sapos.
No exagerara quando falara a Christopher que Ekhatherina teria um progresso impressionante. A capacidade de aprendizado das crianas era fabuloso. Como esponjas secas, sugavam tudo, absorvendo qualquer informao que lhe era apresentada. A pequena Ekhatherina no era diferente.
Em semanas, Mary Hellen sabia que o beb de Christopher estaria pronunciando verbos e substantivos, e em seguida aprendendo a formular sentenas simples. Dessa etapa, a comunicao entre pai e filha seria ilimitada.
Mary Hellen tambm compreendia que, quando partisse, eles ficariam bem. Porm, ao pensar em si mesma, ficava imaginando quanto tempo levaria para tirar de seu corao a saudade daquele homem especial e de sua filha preciosa.
Um movimento a obrigou a erguer o olhar. Christopher estava em p, com as mos postas no batente da porta. A luz atrs dele deixava-lhe o semblante na escurido, mas enfatizava a largura dos ombros e os contornos do corpo esguio.
Mary Hellen maravilhou-se com o fato de a mera viso fazer sua pulsao acelerar.
	Bem, aps trs histrias e uma troca de fraldas, Ekhatherina resolveu se acalmar.
Mary Hellen pde apenas sorrir, desejando que sua desolao e tristeza no estivessem evidentes. As sensaes eram tolas, mas bani-las era impossvel.
O fato de Christopher ter colocado Ekhatherina na cama sem sua ajuda era mais uma evidncia de que a necessidade que tinha dela ali desaparecia como por encanto. O que a deixava desolada.
	Acho que precisamos conversar.
Mary Hellen assentiu, sabendo que, embora a varanda estivesse s escuras, a luz que vinha do interior da residncia iluminava seu rosto o bastante para que Christopher pudesse ver sua resposta silenciosa. No confiava na voz para falar naquele momento.
Ele aproximou-se, mas parou antes de chegar perto demais. Mary Hellen ficou aliviada por Christopher no acender a lmpada. Era melhor discutirem o assunto na penumbra.
Christopher cruzou os braos e apoiou-se na parede.
	H quanto tempo sabe do emprego?
Mary Hellen sentiu vontade de adiar a conversa. Mas no poderia.
	Faz pouco. Apenas alguns dias.
O silncio dele pareceu mostrar sua desaprovao.
	Voc sabia que eu estava procurando trabalho, Christopher. Esse era o plano desde o princpio.
	Eu sei.
A ltima coisa que Mary Hellen queria era uma discusso. De fato, estava quase desabando em lgrimas. Se a raiva dele aflorasse ou Mary Hellen ficasse muito aborrecida, poderia acabar revelando mais do que devia acerca dos prprios sentimentos.
	Apenas fico imaginando o motivo de voc no ter me contado de imediato.
"Porque eu no queria estragar toda a diverso que experimentvamos. Porque eu gostava do modo como voc me tratava. Apreciava o jeito como me fitava. E me beijava..."
Podia apenas pensar em tudo isso, mas no verbalizar.
Christopher focou a viso em algum lugar ao longe do quintal.
Alguns instantes se passaram, e a agonia de Mary Hellen apenas aumentava. O tempo urgia. Ela precisava lidar com o assunto e habituar-se quilo, para poder seguir adiante.
Cometera o erro de apaixonar-se por Christopher, mas superaria isso.
Apesar de saber que um dia acabaria esquecendo os sentimentos ntimos que nutria por ele, nunca deixaria de se importar com Christopher.
Ele lhe falara antes que no estava interessado em se casar, porm, mesmo assim Mary Hellen achava que seria a melhor soluo.
Pensou na visita de Ekhatherina  pediatra e em como Christopher ficou perturbado. Aps sua partida, ele no teria ningum em quem se apoiar.
Ficara muito bravo quando Mary Hellen opinou a respeito de vir a ter uma esposa de verdade. Entretanto, depois que ela partisse, no teria outra oportunidade de lhe dizer que Christopher precisava abrir-se para o amor.
Decidiu, portanto, correr o risco de avivar-lhe a ira e ficou imaginando qual seria a melhor maneira de abordar o tema, dando o conselho indesejado.
	Christopher, voc sabe que partirei em breve. Mas h algo que gostaria de lhe dizer. Depois que eu me for, no terei oportunidade de expressar o que sinto.
Christopher fitava-a com ateno.
	Desde que eu vim para c, sinto que nos tornamos... amigos.
Christopher ficou tenso.
	Por isso, no posso deixar de lhe falar, de novo, que... voc precisa de algum.
	Mary Hellen...
Mas ela recusou-se a ser interrompida.
	Espere. Por favor, deixe-me terminar. Eu me importo com seu bem-estar e o de Ekhatherina. Sei que j conversamos sobre isso, mas ficarei preocupada com vocs dois quando viajar. Quero s que me diga que no mnimo pensar em namorar. E tentar imaginar-se com uma moa que possa... ajud-lo. Algum que seja uma me para Ekhatherina.
Mary Hellen no queria que entrar em muitos detalhes. E muito menos imaginar a alegria que aquela outra mulher encontraria nos braos dele. O simples fato de saber que o homem que amava no estaria s bastaria. Teria de bastar.
	Prometa-me que, assim que eu virar as costas, voc tentar encontrar uma esposa.
Christopher suspirou. Os braos penderam nas laterais do corpo, e ele deu alguns passos na direo de Mary Hellen.
	Oh, Mary Hellen...  Sentou-se perto dela.  Fico to feliz em saber que voc se importa comigo e com Ekhatherina!
Ela no sabia o que dizer. Preparara-se para a fria de Christopher, e foi surpreendida pela doura de seu semblante.
	Voc tem razo.  Christopher sorriu.  Ns nos tornamos amigos. Sei que lhe devo muito. Quero que me compreenda. Gostaria que me deixasse explicar...
Christopher, num rompante, tomou a mo de Mary Hellen entre as suas.
	Eu gostaria de esclarecer por que nunca poderei lhe prometer o que est me pedindo.

CAPTULO XI

Grazielle era to jovem... A voz de Christopher chegava at Mary Hellen, acariciando-a, mas havia tenso nas palavras. Uma combinao desconcertante.
	Tinha apenas dezenove anos. Eu a amava de verdade.  Olhava por sobre o ombro de Mary Hellen, parecendo consultar a noite, enquanto falava.  Mas ns ramos novos demais para nos casarmos.
Mary Hellen estava sentada, silenciosa e pensativa. O relacionamento de Christopher com a moa a que se referia devia ter sido srio, se chegaram a cogitar casamento.
	Grazielle formara-se no colegial no ano anterior. Tinha um emprego em perodo integral. Achava-se pronta para comear a nova fase de sua existncia, a qual era, em seu modo de ver, composta apenas por matrimnio, filhos, um lar...
Houve agitao nos movimentos de Christopher, quando coou o queixo com expresso ausente.
	E eu? Estava entrando no terceiro ano de faculdade. Mal completara vinte anos. De modo algum estava pronto para um compromisso e a responsabilidade de ter esposa e famlia. Queria dedicar-me por completo aos estudos.
Christopher suspirou.
	Ela falava em casamento com frequncia. Eu tentava ser paciente e explicar meus objetivos de uma maneira que no a magoasse, mas minha namorada parecia no compreender.
Mary Hellen, ento, sentiu o olhar intenso em seu rosto, mas duvidava que at mesmo Christopher a estivesse enxergando. Encontrava-se em outro lugar, em outra poca.
	Talvez compreendesse, mas estivesse determinada a alcanar as prprias objetivas. No sei dizer.
Christopher inclinou-se adiante e descansou os cotovelos nos joelhos. A musculatura do pescoo relaxou um pouco, e a cabea pendeu para baixo. Olhou para as mos entrelaadas ou para o cho, Mary Hellen no sabia ao certo.
Respirou fundo, num suspiro que disse-lhe que algo estava prestes a acontecer. Algo grande e ruim. E, fosse o que fosse, Christopher tinha medo de falar.
Mary Hellen prendeu a respirao e ficou aguardando que a recordao, sem dvida dolorosa, lhe fosse revelada.
	Grazielle foi at mim certo dia e pressionou-me a marcar uma data. De novo. Repeti que o momento no era apropriado. No queria mago-la, nunca quis. Mas minha namorada no parava de pressionar. De repente, explodiu em gritos, afirmando que queria casar-se de imediato, bem no incio de meu ltimo ano na faculdade. Falei-lhe que a idia era ridcula e que ns teramos de esperar. Grazielle agia como se nem mesmo me ouvisse. Dizia que iria trabalhar, e eu continuaria indo s aulas. Nossas vidas seriam perfeitas, dizia.
Passou a mo pelas faces e voltou a suspirar.
	Foi a que perdi a pacincia. Estava to frustrado! "Voc no entende o que estou tentando fazer?", perguntei-lhe. Estava lutando muito para conseguir um diploma. Isso nada significava para ela? Disse-lhe tantas coisas que nem mesmo me lembro de tudo agora. Mas recordo-me de ter terminado o relacionamento. Jurei que no me casaria com ela nem com nenhuma outra garota durante muito tempo. Anos at. Christopher sentiu um arrepio.
	Grazielle me xingou, praguejou... Ento correu, soluando to alto que as pessoas comearam a aparecer nas janelas para ver o que acontecia.
Christopher ficou frio, e Mary Hellen teve de obrigar-se a no toc-lo. Ainda no. Alguma coisa lhe dizia que no era o momento certo. Ele estava por demais envolvido nos acontecimentos amargos.
	Ela saiu de carro em disparada...  Christopher engoliu em seco.  ...e causou um acidente com mais quatro veculos na rodovia.
Mary Hellen temeu que seu murmrio de susto o perturbasse. No entanto, Christopher mergulhara muito fundo nas recordaes para at mesmo ter conscincia de como fora sua reao.
	Quando cheguei ao hospital, era tarde demais.
	Oh, Christopher...
Dessa vez, o impulso foi muito poderoso para ser contido. Mary Hellen pousou a mo em seu brao.
	Ela morreu?
	No.
Mary Hellen franziu a testa, confusa. Sendo assim, o que quisera dizer com...
	Mas nosso beb sim. E eu nem mesmo sabia que ia ser pai.
Christopher pareceu isolar-se do presente ainda mais. E Mary Hellen soube que nada que dissesse o confortaria naquele momento.
Soltou-o e levou os dedos de encontro ao peito, na altura do corao, que se contraa com a dor de Christopher.
	Fui to egosta, Mary Hellen... Estava to concentrado no que eu queria, no que pretendia ter, que recusei-me a escut-la. Nem ouvi o que tentou revelar quando implorou que nos casssemos. Grazielle estava grvida de um filho meu, e apavorada. E simplesmente a dispensei! Agitado, Christopher alisou os cabelos.
	Minha rudeza, minha teimosia... mas mais do que tudo meu egocentrismo causaram a morte de meu filho.
Christopher respirava em golfadas entrecortadas, e Mary Hellen teve certeza de que comearia a chorar. Contudo, manteve-se firme.
Ela queria muito poder abra-lo, mas, como no sabia como Christopher reagiria, nada fez.
	Depois disso, jurei que no causaria infelicidade a nenhuma outra mulher. No deixaria ningum apaixonar-se por mim. No permitiria que uma garota chegasse perto o bastante para se machucar. Conclu que no sou adequado como companheiro. Isso tornou-se muito claro para mim, na ocasio. Assim como est muitssimo evidente agora.
Naquele instante, Mary Hellen compreendeu. Quando conheceu Christopher, suspeitou de que ele no queria envolver-se porque fora magoado por alguma moa. Descobrira a verdade. Fora ele quem causara a mgoa.
A idia de que negava-se o direito  felicidade, ao amor e companheirismo, partilha e ternura que um grande amor lhe traria desconcertou Mary Hellen.
Com lgrimas nos olhos e a alma em frangalhos, mergulhou mais fundo na melancolia dele. Lamentava a perda da criana de cuja existncia Christopher soube apenas quando j era tarde demais.
Mary Hellen fez uma constatao surpreendente. Christopher tomara decises bastante duras e inflexveis porque sentia culpa acerca de eventos ocorridos. Acontecimentos sobre os quais teve pouco ou nenhum controle.
	Christopher...
Ele nada respondeu, no mexeu um msculo sequer, e Mary Hellen decidiu que ainda estava perdido nas lembranas terrveis.
A urgncia em resgat-lo era imensa. Christopher precisava libertar-se de tanto sofrimento.
Pousou a mo no ombro dele e apertou com suavidade.
	Christopher, olhe para mim.
Ele virou-se em sua direo, e o que Mary Hellen viu quase a fez cair em pranto. O olhar dele perdera a intensidade, percebia isso at mesmo na penumbra da varanda.
Christopher parecia letrgico, como se tivesse corrido por uma distncia muito longa e sentisse enorme exausto.
	Voc no pode se culpar, Christopher. No sabia que Grazielle esperava um beb. Desconhecia a existncia da criana quando ela saiu em disparada.
	Eu posso me culpar, sim. E me culpo. Se no tivesse sido to dominador, Grazielle teria se sentido mais confortvel para me contar o que estava acontecendo. Rejeitei-a, e ela correu s cegas e envolveu-se em um acidente que tirou a vida de nosso beb. Sempre me sentirei responsvel, sempre!
Mary Hellen conseguia compreend-lo, por mais ilgico que fosse. Afatou-o, tentando em vo dar-lhe algum conforto.
	Sabe, Christopher,  costume nos dizerem para deixarmos o passado para trs. Devemos aprender com nossos erros e tentar no repeti-los. Esquecer o que passou e seguir adiante. No entanto, acredito que a vida lhe props uma situao que no pode ser colocada de lado. Voc ter de conviver com isso.
Ela segurou-lhe o pulso, e Christopher pareceu muito aliviado em constatar que Mary Hellen no tentaria convenc-lo a deixar de sentir-se mal por tudo o que ocorrera tanto tempo atrs.
	Tambm acredito, Christopher, que a pessoa que voc  resulta do que experimentou um dia. Acredito que essa seja a grande verdade para todos ns. Voc, eu, cada ser humano.
Mary Hellen suavizou a entonao ao acrescentar:
	Se no tivesse rejeitado Grazielle, se no tivesse desprezado sua primeira oportunidade de constituir uma famlia, ento... quem sabe? Poderia nunca ter sentido vontade de responder ao apelo desesperado de Ekhatherina por um pai e um lar, quando assistiu quele programa de televiso. E vou lhe dizer algo mais. Pode se sentir muito mal em relao a seu comportamento egosta com sua namorada, Christopher, mas o fato de ter abrigado aquela menina, quando ela no tinha nada nem nenhum lugar para onde ir, foi o ato mais desprendido
que j tive oportunidade de presenciar.
Mary Hellen notou uma luz nova brilhando naquelas pupilas. Era algo tnue, um raio de esperana, mas existia. Pela primeira vez, pareceu que Christopher ponderava a situao dolorosa sob um ngulo diferente.
	No vou lhe dizer para tentar esquecer-se de tudo, mas digo-lhe que  hora de perdoar. E sabe quem? Voc mesmo.
A cada sentena, Christopher aprumava-se um pouco mais. Considerava tudo o que Mary Hellen lhe dizia com intensa concentrao.
	No podemos mudar o passado, isso  uma realidade. Mas  nosso dever fazer o melhor para tornar o futuro gratificante para ns e aqueles a quem amamos.
Mary Hellen parou de acarinh-lo e deslizou para a beirada da cadeira. Queria estar o mais prximo possvel dele quando expressasse suas palavras finais:
	Comecei a me importar muito com voc e Ekhatherina. E pode at ficar bravo com o que estou prestes a falar, mas o que me contou no me faz mudar de opinio. Ainda sinto que necessita de uma companheira em seu caminho.
Antes que ele pudesse responder, apressou-se:
	Quando recordo do pavor que experimentou com Ekhatherina, como na ocasio em que o beb caiu do bero... ou as preocupaes na sala da mdica... e at mesmo nos momentos maravilhosos, como esta noite, quando sua filha falou a primeira palavra em nosso idioma, fico triste em imaginar que, assim que eu for embora daqui, voc no ter ningum com quem dividir coisas assim.
Pousou a palma no joelho dele.
	Tem de encontrar algum com quem partilhar sua existncia.
Christopher a encarou, e Mary Hellen preparou-se para sua ira.
Porm, ela no veio.
Os segundos pareciam transcorrer em cmera lenta. Era impossvel saber o que ia pela mente de Christopher. Seria indeciso o que pairava nas ris escuras?
Com vagar, ele umedeceu os lbios com a lngua. E os maxilares ficaram rgidos, no que parecia ser uma resoluo sbita.
Foi quando Christopher afirmou:
	No quero qualquer pessoa. Eu quero voc!
"Por que diabos no mordi a lngua, Santo Deus? Por que deixei as frasess sarem de minha boca?!"
Porque Christopher no teve o menor controle sobre o que falou. Sua fraqueza fez suas emoes se revelarem. E temia ter assustado Mary Hellen.
Apavorada, Mary Hellen saiu correndo da varanda.
Primeiro, ficara apenas estupefata. E a, com muita rapidez fabulosa, o medo dominou todos os ngulos de seu lindo semblante.
A pele pareceu muito plida, apesar da escurido, os olhos, arregalados, com o que Christopher poderia escrever como pavor. E sara em disparada, come o diabo foge da cruz.
Se tivesse mantido a boca fechada, no estaria sentado ali, s e na escurido.
Ao explicar a morte de seu filho a Mary Hellen, Christopher foi aoitado por emoes to intensas que achou que fosse perder-se para sempre nes horrores das recordaes.
Mas Mary Hellen consegui-a resgat-lo com seu jeito doce, confortando-o at deix-lo livre e sozinho na varanda.
O que ela dissera fazia sentido. Algumas situaes no podem ser esquecidas. Jamais deixaria de recordar o primeiro filho. E algumas atitudes e comportamentos, no importava o quo pesarosos fossem, no podiam ser postos de lado, mas suportados.
Fora correta tambm ao proclamar que as pesseas eram moldadas por suas experincias. Orgulhava-se do fato de Mary Hellen considerar a adoto de Ekhatherina um ato desprendido. No havia pensado no assunto sob esse prisma antes. Talvez tudo o que ocorrera em sua vida tivesse ajudado Christopher a se tornar um homem melhor.
Sim, conforme Mary Hellea afirmara, cada pessoa  resultado direto do que experimentou um dia.
Tudo o que ouvira foi uma chave importante para destravar no apenas os mistrios de quem ele era e do que sofrera, como tambm as dores dela.
O medo que tomou-a apenas momentos atrs o confundiu. O que gerava tanto pinico?
Christopher vira aquele comportamento antes, lembrou-se, quando beijou-a pela primeira vez no corredor, tantas semanas atrs.
Beijara-a, e Mary Hellen cerrera para o quarto, amedrontada. E no dia seguinte ameaara partir. Apenas seu apelo, dizendo que necessitava dela, mudara sua inteno de ir para longe, de imediato.
Christopher chegara a achar que Mary Hellen tinha medo de intimidade... que sua inexperincia com homens tornava-a arredia. Porm, logo aprendeu que no era isso. Aps o incidente em que ela sara enrolada em uma toalha no meio de um banho de imerso, comearam a flertar.
Fora um comportamento leve e frvolo, e Mary Hellen parecera divertir-se tanto quanto ele.
Talvez tivesse conseguido relaxar porque o que ocorrera entre os dois no passava de brincadeira. Contanto que o flerte permanecesse em um nvel superficial, Mary Hellen sentia-se segura.
Seria isso? Poderia ser que, contanto que a atrao tivesse algum apoio em um clima divertido, ela quisesse jogar?
O relacionamento deles no iria a lugar algum. Ao menos era o que o jogo trivial deixara implcito. Fora isso o que os dois, erradamente, concluram. O que haviam verbalizado.
A atrao era externa, e poderia ser deixada para trs com facilidade, e assim seria quando fosse hora de Mary Hellen partir. Era por isso que ela se mostrava segura em participar.
Contudo, por que estava to determinada a deix-los?
O que sentiam um pelo outro, a eletricidade poderosa, era to forte que qualquer um perceberia. E Mary Hellen, decerto, no era pouco perceptiva. Era carinhosa e se preocupava muito com os que estavam a seu redor. Todo aquele contexto parecia formar uma grande contradio.
Frustrado, Christopher suspirou. Sentia como se lhe faltassem muitas informaes a respeito de quem Mary Hellen era, o que lhe ia no ntimo e por qu. Mas como obter um quadro coerente?
Uma pessoa era moldada pelo passado...
O conceito voltou a povoar sua mente. Poderia o temor de Mary Hellen ter sido provocado por algo que acontecera?
Ela fora abandonada pela me. Passara de um lar adotivo para outro. Resolvera dar aulas porque as crianas necessitavam dela. Deixara os Estados Unidos... por qu?, Christopher indagou-se.
Fora para outros pases aps ter se formado na faculdade e no retornara at concordar em ajud-lo com Ekhatherina.
Ser que toda a Amrica do Norte representava um lugar onde no se sentia querida?
Duas palavras pareciam fundamentais: querer e precisar.
Mary Hellen no se sentiu querida quando criana. E todas as vezes em que Christopher dera a entender atravs de palavras ou atitudes fsicas que a queria, Mary Hellen entrara em pnico e dera-lhe as costas.
Ensinava ingls a crianas estrangeiras que necessitavam de sua auxlio. E Christopher convencera-a a ajud-lo, persuadira-a a ficar quando Mary Hellen ameaara ir apenas explicando o quanto precisava dela.
Sim, Mary Hellen tinha de ser necessria. Mas temia ser querida.
A revelao fez Christopher apoiar o queixo entre o indicador e o polegar.
O fato de ser amada tornava-a vulnervel s emoes dos outros, e, portanto,  mgoa. E como devia ter sido magoada durante a infncia e adolescncia!
Levantou-se e caminhou at a porta que conduzia  entrada. Ali ficou em p, imvel.
Naquele instante, Christopher sentiu que compreendia um pouco melhor Mary Hellen e os motivos que a impulsionavam.
Tinha a sensao de que uma tarefa de uma vida toda estava a sua frente: fazer Mary Hellen compreender a si mesma, bem como ao medo avassalador que a dominava... antes que entrasse em um avio e voasse para bem longe dele, para sempre.

CAPTULO XII

Mary Hellen estava de partida. Com uma estranha mistura de tristeza, pesar e pnico, enfiou uma blusa de algodo na mala e a fechou. Colocou a mochila sobre a cama e sentou-se no cho. Num gesto automtico, estendeu a mo e ajeitou as pregas da colcha.
No fazia idia do que ocorrera com ela no decorrer das ltimas vinte e quatro horas. Sabia apenas que precisava ir embora. E logo na noite anterior, na varanda, depois que Christopher lhe faiou que a queria, Mary Hellen sentiu-se dominada por um pavor to intenso que viu-se sem escapatria.
Amava Christopher. Sabia disso, e ouvi-lo dizer o que dissera devia t-la feito delirar de alegria. Porm, isso no acontecera.
Naquele instante, sentira-se de novo uma garotinha, uma criana indefesa sentada em um quarto escuro, temendo que o homem feio aparecesse, e sabendo que viria a qualquer momento.
A emoo fora mais intensa do que era capaz de suportar. Por isso fizera a nica coisa que pde; correu. Voou para se salvar.
Fora um ato instintivo, um reflexo natural que no poderia ter contido, mesmo que quisesse.
Depois, ficou rolando na cama durante horas, sentindo que algo terrvel estava prestes a ocorrer. E despertou naquela manh com a mesma sensao de ameaa fazendo seu estmago doer.
Por isso, decidiu que tinha de partir. Era preciso. Seu emprego de professora na Eslovquia era a soluo perfeita.
Christopher aceitara a notcia naquela manh muito bem, considerando o modo como Mary Hellen o deixou, de modo to abrupto, na vspera. No lhe fez perguntas, apenas afirmou que faria o possvel para agendar o vo transatlntico para o dia seguinte.
Mary Hellen, com sucesso, evitara-o durante o restante do dia. E reunira seus pertences antecipadamente para a viagem que faria em seguida.
Sentiria falta da pequena Ekhatherina. Sorriu de leve ao imaginar o rosto inocente da criana, seus lindos cabelos agora brilhantes, fruto da dieta saudvel que seu papai lhe providenciava.
Lembrar-se-ia sempre de seus sorrisos e gargalhadas. Ekhatherina era uma linda garotinha, e Mary Hellen sabia que desabrocharia como uma flor adorvel sob os cuidados amorosos de Christopher.
Christopher... Sentiria falta dele tambm. Era um homem que...
Uma apreenso glida tomou-a, tirando-lhe o flego. O corao disparou.
 Pare!  ordenou-se, pressionando a palma contra a base do pescoo e inalando com dificuldade, conforme tentava controlar o pavor.
Tinha de deixar de pensar em Christopher. Foi at a porta e abriu-a.
O luar era filtrado pela janela do banheiro, iluminando o corredor. Mary Hellen parou do lado de fora do quarto de Ekhatherina. Ouviu a menina brincando l dentro.
Passara bastante tempo com ela, despedindo-se, mas necessitava de algo para ocupar a mente e ajud-la a superar a ansiedade.
Assim que girou a maaneta, teve de sorrir diante da cena. Ekhatherina e Christopher brincavam no carpete. A menina tentava equilibrar um bloco no alto da cabea do pai. Christopher, sentado no cho, permanecia imvel, e Ekhatherina ria, muito alegre, cada vez que o bloco colorido caa.
	Ol...  Mary Hellen falou com suavidade.
A garotinha disse:
	Ol  sem a menor hesitao, e Mary Hellen mais uma vez lembrou-se da imensa habilidade em aprender que as crianas costumavam ter.
Christopher colocou Ekhatherina no colo.
	Voc no  a garotinha mais inteligente de todo o universo?  perguntou e deu uma mordida alegre na orelha da filha.  Entre, Mary Hellen.
Ela obedeceu, meio insegura.
	Apenas pensei em passar um pouco de tempo com Ekhatherina... antes de minha partida.
Christopher fez um gesto de aquiescncia, porm, nada falou.
Ekhatherina escapou do abrao do pai e foi andando cambaleante para junto de Mary Hellen, agarrando-lhe a mo. Ento, a garotinha conduziu-a para onde Christopher estava sentado e fez com que Mary Hellen se acomodasse ao lado do pai. Estendeu um bloco de madeira, deixando claro que gostaria que participasse do jogo de equilibrar um bloco sobre a cabea.
Mary Hellen mordeu o lbio inferior e ficou olhando para o bloco. Fora at ali para ficar com Ekhatherina, mas no relaxaria, estando Christopher presente. Devia ter previsto que ele estaria ali.
Procurou fortalecer a resoluo e ergueu o queixo... e encontrou o olhar mais intenso que j vira.
Havia mensagens importantes nas ris castanhas de Christopher, que Mary Hellen no estava preparada para decifrar. No naquele instante. No com todo caos reinante em seu peito.
A frustrao de Ekhatherina tornou-se visvel. Mary Hellen desviou o olhar para a menina e colocou o bloco, com delicadeza, sobre os cabelos de Christopher.
A menina bateu palmas e gargalhou. Mary Hellen e Christopher no conseguiram conter o sorriso diante da empolgao da criana. Era preciso to pouco para Ekhatherina ficar feliz...
Mary Hellen sentiu uma tremenda satisfao por a menina estar tendo a chance de um futuro cheio de brilho.
De soslaio, notou um movimento e, por instinto, estendeu a mo para impedir a queda do bloco.
Christopher reagiu com o mesmo reflexo.
O brinquedo caiu na mo de Mary Hellen, e a de Christopher segurou a dela.
Seus olhares se encontraram. Embora ele no mexesse um msculo sequer, Mary Hellen sentia-se acariciada.
Aborrecida com aqueles adultos tediosos, Ekhatherina tirou o bloco da mo de Mary Hellen e foi andando at sua caixa de brinquedos.
Bem devagar, Mary Hellen desvencilhou os dedos e fitou o carpete.
Mas Christopher segurou-lhe o queixo e aplicou presso suficiente para que ela o encarasse.
 Por favor, Mary Hellen... olhe para mim. Converse comigo. Confie em mim.
O medo mostrava suas garras. O ar pareceu fugir dos pulmes dela, contudo, sabia que no passava de fruto de sua imaginao.
	Mary Hellen?
A splica pareceu apenas aumentar sua ansiedade.
Christopher era to bom e gentil... Tornara-se seu amigo no decorrer das ltimas semanas. Por que ento lhe provocava aquela sensao ruim?
	Estou apavorada.
	Eu sei, querida. Percebi que est. E gostaria que voc me falasse a respeito.
De novo Mary Hellen experimentou a impresso de estar em um vcuo.
	Estou... apenas... apavorada.
Evidente que Christopher entendeu que Mary Hellen no conseguiria dizer mais.
	Contanto que nosso relacionamento permanea em um nvel superficial, Mary Hellen, com aquela falsa idia de flerte, voc fica bem. No entanto, no instante em que torna-se um pouco mais srio... assim que amos ficar mais unidos, seu semblante mostrou puro terror.
Ela assentiu.
	 verdade.  o que estou sentindo agora. Christopher demonstravam compaixo. Aos poucos
Mary Hellen foi encontrando foras para afugentar o medo. Tremia ao dizer:
	Sinto-me como uma criana pequenina. Esperando e observando. Tudo  to estranho! To... infantil. Mesmo assim,  mais real do que qualquer outra sensao que j experimentei.  como saber que algo acontecer e... e... e vir me apanhar.
	Querida...  A gentileza dele bastou para pr por terra suas defesas.  Talvez voc no tema algo que v acontecer, mas tenha medo que algum no venha.
Mary Hellen franziu o cenho, confusa. O que Christopher queria dizer?
	Durante todos os anos em que esteve em lares adotivos  comeou a explicar, tomando-lhe a mo , voc esperou por algum que a adotasse, que a amasse. E a quisesse.
O pnico de Mary Hellen voltou a crescer. A viso ficou nublada pelas lgrimas. Foi bombardeada pela urgncia avassaladora de escapar dele... No dele, mas das recordaes, da verdade que Christopher lhe colocava diante dos olhos.
A palma quente curvou-se, protetora, ao redor de seus dedos, e agia como um lembrete  sanidade,  necessidade de ser forte.
As frases avivavam seus temores sim, mas Mary Hellen, desesperada, queria superar e banir para sempre o pavor. De alguma maneira, sabia que Christopher poderia ajud-la.
	E como essa pessoa no veio, minha querida, voc se fechou e decidiu proteger-se da dor e mgoa, da recusa em ser amada. Da recusa em ser querida.
Mary Hellen franziu a testa ainda mais. Ser que o terror que sentia fazia tanto tempo podia ser reduzido a algo simples assim?
Christopher tinha razo quanto ao flerte. Ela gostara muito, talvez porque esperasse que a brincadeira pudesse ser esquecida com facilidade. Mas logo percebeu que se equivocara.
Apaixonara-se por Christopher, e de uma maneira to intensa que no havia escapatria. Foi quando o terror galgou alturas impressionantes. Insuportveis.
	Quero voc, Mary Hellen. Eu te amo. E, mesmo que corra de mim, o que sinto por voc no mudar.
Mary Hellen ficou surpresa porque por fora aparentava tanta calma quando seu interior estava a um passo da histeria.
"O monstro est chegando", uma vozinha lhe falava. "Ele, vai pegar voc. Corra. Fuja!"
Mas o amor que sentia por Christopher era um feixe de luz no negro recanto de sua memria. Era quase como se ele tivesse aberto aquela porta imaginria que a garotinha perto dela temia. E o espao vazio e to escuro que imaginava existir ali dentro e que tanto a aterrorizava no estivesse vazio.
Christopher, que se encontrava ao batente, preenchia o espao, e estendida a mo para ela, cheio de afeto.
	Voc me fez ver que devia aprender com os erros que cometi, Mary Hellen, e no tem-los para sempre. Antes que entrasse em minha vida, eu era uma pessoa pela metade. Pressinto que devia sentir-se assim tambm. Juntos, poderemos nos completar.
Como Mary Hellen queria sentir-se completa e amada... Adoraria poder conhecer o amor, dar amor. Oh, como precisava se sentir querida!
O n na garganta de Mary Hellen no lhe permitia falar, mas estava determinada a dizer a Christopher o que lhe ia no peito.
	Christopher... tambm amo voc.
Ele puxou-a para o colo, e Mary Hellen mergulhou o rosto contra o pescoo largo. O cheiro dele era to bom! Cheiro de segurana e afeto.
	Graas a Deus, querida!  Christopher sussurrou contra os cabelos perfumados.
Mary Hellen empurrou-o de leve para fit-lo, de olhos arregalados.
	Mas e quanto quela passagem de avio para amanh?
Christopher fez um muxoxo e sorriu, maroto.
	Ora, no h passagem alguma! Eu estava determinado a lhe revelar que a amava e a fazer com que voc decidisse ficar aqui comigo e com Ekhatherina. Jurara a mim mesmo... Enfim, at rasguei os papis da anulao do casamento.
	Voc... destruiu os papis?!
Ele fez que sim.
Mary Hellen nem podia acreditar. Ainda era a esposa de Christopher!
A gargalhada dele pairou alegre pelo ambiente.
Christopher decidira adotar Ekhatherina e at mesmo casara-se com Mary Hellen para que seus planos se concretizassem. Sim, era um homem que sabia traar e alcanar seus objetivos.
Sorrindo para ele, Mary Hellen imprimiu o som mais rouco e sensual que pde  voz:
	Determinao  uma de suas maiores virtudes, querido.  E beijou-o na boca.
Um beijo que provava, sem deixar dvida alguma, o que ela sentia.
	Fiz uma promessa de que, se voc me amasse, iria faz-la muito feliz. E pode acreditar quando digo que lhe proporcionarei uma cerimnia matrimonial  altura. Uma da qual jamais esquecer, meu amor. Dentre todas as pessoas do mundo, voc  quem mais merece!
Sabendo que Ekhatherina divertia-se, tranquila, a seu lado, Mary Hellen deixou-se envolver pelos braos fortes de seu amado.
Beijaram-se com ardor e ternura, e Mary Hellen compreendeu, de uma vez por todas, que aquele era o comeo de um futuro maravilhoso para todos.

EPLOGO

 Eu, Christopher, aceito voc, Mary Hellen... Embevecida, Mary Hellen contemplava o belo rosto do homem que amava.
	...como minha esposa...
A renda branca de seu vestido de noiva fazia-a sentir-se como uma princesa. O amor brilhando nos olhos de Christopher tornava-a uma rainha.
	...para proteger, deste dia em diante...
Mary Hellen olhou para a pequena Ekhatherna, em p entre os dois, fantstica em seu vestidinho de cetim rosa.
Entretanto, o que mais encantava Mary Hellen era a alegria intensa que notava em Christopher. Sentia-se perdida naquele olhar. Ou melhor: fora nele que se encontrara.
Antes que se desse conta, o reverendo pediu que ela repetisse os votos de fidelidade, as palavras que iriam uni-la a Christopher por toda a eternidade.
Seu corao transbordava de contentamento, mas Mary Hellen no teve dificuldade em falar, alto e com muita clareza.
Aps trocarem as alianas, o pastor disse:
	Pelo poder que me foi concedido, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva, sr. Kimball.
O beijo foi firme, quente e repleto de promessas de amor.
Bob Davis. ajudante de Christopher, e sua esposa, Joan, parabenizaram os recm-casados. Haviam concordado com indizvel satisfao em serem os padrinhos.
Christopher, ento, abaixou-se e pegou Ekhatherina no colo.
 Ei, minha linda!  Beijou o rostinho da filha.
A menina sorriu para a nova me e abraou o pai. Em seguida, foi colocada no cho.
Assim, de mos dadas, a pequena famlia desceu do altar da igreja.
Enfim, seriam felizes para sempre.


